Mulheres do Poty: práticas organizativas das artesãs da Cooperativa do Poty Velho

Poty Women: organizational practices of the artisans of the Poty Velho Cooperative

LILIANE ARAUJO PINTO - e-mail: lilianeap.ufpi@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3804-2540, Afiliação institucional:Universidade Federal do Piauí - Teresina - PI - Brasil, Titulação: Professora Efetiva da Universidade Federal do Piauí. Curso de Moda, Design e Estilismo, Doutora em Administração pela Universidade Federal da Paraíba.
MARIANE GORETTI DE SÁ BEZERRA LEAL - e-mail: mariane.goretti@ufpi.edu.br, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1159-1355, Afiliação: Universidade Federal do Piauí - Teresina - PI - Brasil, Titulação: Professora Efetiva do Curso de Administração da Universidade Federal do Piauí, Doutora em Administração pela Universidade Federal da Paraíba.
MARIA DO SOCORRO MOURA COSTA -  e-mail: mariasocorromcosta@hotmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5465-2130, Afiliação: https://orcid.org/0000-0002-5465-2130, Titulação: Professora da Universidade Federal do Piauí, Curso de Administração, Doutoranda pela Universidade Federal da Paraíba.
MÁRCIO VINÍCIUS PESSOA BRITO - e-mail: marciovinicius.adm@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7387-9947, Afiliação institucional: UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA, Titulaçaõ: Professor Efetivo da Universidade Federal do Piauí, Curso de Administração, Doutorando em Administração pela Universidade Federal da Paraíba.

 

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Resumo 

Uma comunidade de prática é formada por um grupo de pessoas com objetivos em comum, que juntas buscam se aperfeiçoar em determinada prática, visando a diferenciação profissional. Selecionou-se como objeto de estudo mulheres inseridas numa comunidade de baixa renda que saíram de uma situação de coadjuvância para o protagonismo, por meio do artesanato. Assim, o objetivo desse estudo é compreender como as práticas organizativas na atividade artesanal possibilitaram o protagonismo das Mulheres do Poty Velho em Teresina- Piauí. A metodologia adotada foi a pesquisa qualitativa, com entrevistas semiestruturadas, realizadas com três artesãs, tendo como propósito analisar suas práticas organizativas. Utilizou-se a análise de conteúdo para apreciação dos dados. Os resultados demonstram a evolução e reconhecimento das artesãs, levando em consideração os contextos históricos, materiais e humanos. Concluiu-se que a atividade artesanal realizada pelas mulheres do Poty se constitui efetivamente como uma comunidade de prática.

Palavras-chave: Comunidades de práticas. Práticas organizativas. Mulheres artesãs. 

 

Abstract 

A community of practice is formed by a group of people with common goals, who together seek to improve in a given practice, aiming at professional differentiation. We selected as object of study women inserted in a low-income community who left a situation of co-adjuvancy for the protagonism, through handicrafts. Thus, the objective of this study is to understand how the organizational practices in the artisanal activity made possible the protagonism of the Poty Velho Women in Teresina-Piauí. The methodology adopted was qualitative research, with semi-structured interviews, carried out with three artisans, with the purpose of analyzing their organizational practices. Content analysis was used for data appreciation. The results demonstrate the evolution and recognition of artisans, taking into account the historical, material and human processes. It was concluded that the artisanal activity carried out by the women of Poty effectively constitutes a community of practice.

Keywords: Communities of Practice. Organizational practices. Women artisans.


1 Introdução

 

As organizações são fenômenos sociais processuais constituídas pelas práticas humanas não separadas dos materiais necessários para o desenvolvimento das práticas organizativas. Assim, a abordagem de pesquisas baseadas em práticas nos estudos organizacionais considera, em especial, a compreensão da subjetividade integrada com a materialidade nas organizações em que as pessoas vivem (OLIVEIRA, 2016). De acordo com Schatzki (2005), as operações que compõem as atividades organizativas compreendem o como e com quem as pessoas interagem, o trabalho em conjunto, os eventos e a materialidade mobilizada para as ações sociais. 

Para tanto, destaca-se que as pessoas precisam uma das outras. Elas precisam interagir entre si, pois sempre foi assim, desde os primórdios da humanidade. A formação de grupos para atingirem objetivos em comum é uma necessidade tanto das pessoas, como das organizações, pois estas são formadas por trabalhadores, que por meio da socialização, fazem a troca de experiências e ampliam seus saberes, enriquecendo o conhecimento organizacional.

A formação de grupos faz parte da construção de uma comunidade de prática, na qual os indivíduos se ajudam mutuamente para se tornarem profissionais competentes em uma organização, desenvolvendo conhecimentos, habilidades e atitudes que os tornam mais preparados para os desafios do mercado, pois juntos, por meio dos relacionamentos, tomam melhores decisões. Para os pioneiros em pesquisas sobre comunidades de prática, Lave e Wenger (1998), a aprendizagem e interação se fazem presentes em todos os meios em que há relacionamento entre pessoas, especialmente nas organizações, onde há troca constante de aprendizagem.

No contexto das comunidades de práticas, o presente artigo selecionou como objeto de estudo as mulheres do Poty, pois compreende-se que estudar mulheres oriundas de um meio, ao qual, por muito tempo foram coadjuvantes do trabalho masculino (pesqueira e produção de tijolos), sendo vistas principalmente como domésticas do próprio lar, e por meio de uma luta estabelecida por elas próprias, mudaram a própria realidade, passando de uma situação de  coadjuvância para uma situação de protagonistas do próprio trabalho é interessante para despertar o olhar de outras mulheres e até contribuir para o desenvolvimento de outras comunidades de práticas femininas.   

Assim, estabeleceu-se como objetivo compreender como as práticas organizativas na atividade artesanal possibilitaram o protagonismo das Mulheres do Poty Velho em Teresina-Piauí. Para descrição das práticas organizativas das artesãs, consideraram-se as três categorias citadas por Gherardo (2000) e Sole e Edmondson (2002): processos históricos, processos materiais e processos humanos. Essas categorias tiveram como propósito coletar e analisar determinadas situações vivenciados pelas mulheres artesãs que contribuíram para o desenvolvimento de determinadas práticas. O estudo da história de cada artesã, os instrumentos materiais utilizados nas suas atividades e a socialização do trabalho foram variáveis essenciais para responder o objetivo proposto. Schazki (2003) defende que as práticas são ‘ditos’ e ‘feitos’, ou seja, ‘maneiras de dizer e de fazer’. As práticas, entretanto, produzem os contextos sociais, como os locais de trabalho unidos com os arranjos materiais e situados sócio historicamente (SCHATZKI, 2006). 

O artigo está dividido da seguinte forma: esta breve introdução, destacando o objetivo do artigo, seguido pelo referencial teórico que aborda as temáticas ‘Comunidade de prática’ e ‘Atividade artesanal feminina e o mercado de trabalho’, posteriormente vem a metodologia adotada no estudo, procedendo com a apresentação e análise dos resultados e, por fim, as considerações finais da pesquisa.

 

2 Referencial Teórico

 

2.1 Comunidades de práticas 

 

As comunidades de práticas (Community of Pratice - COPs) surgiram como uma forma de análise para compreender o desenvolvimento de um conhecimento, trabalho e a forma como as organizações são constituídas (BROWN; DUGUID, 1991; WENGER, 1998). Elas retratam o domínio de um aprendizado desenvolvido por um conjunto de pessoas que, unidas, constroem determinada prática (SOUSA-SILVA2009). Assim, passam a dominar conhecimentos que são vivenciados por meio de uma atividade comum e que são experienciadas entre o grupo, construindo, significados que são compartilhados entre eles (VIEIRA, 2006). 

Na COP os indivíduos buscam, em uma empresa, ajudarem-se mutuamente para se tornarem competentes em um determinado empreendimento (WENGER, 2008). Os indivíduos passam a ter o mesmo objetivo e assumem um compromisso mútuo com o outro, com o desejo de juntos resolverem problemas, desenvolverem habilidades e construírem relacionamentos (SOLE; EDMONDSON, 2002).

Para Souza-Silva (2009) três elementos devem ser destacados para um amplo entendimento de COPs: o domínio do conhecimento, a prática e a comunidade. O conhecimento, portanto, se constrói ao longo do tempo, por meio de práticas informais que são negociadas e interagidas dentro de uma comunidade (LAVE; WENGER, 1991). As relações sociais existentes dentro de uma COP fazem com que o conhecimento seja adquirido de forma natural. Polanyi (1958) cita que o conhecimento possui dois enfoques intimamente independentes e complementares, sendo eles: o conhecimento tácito e o conhecimento explícito.

O conhecimento tácito diz respeito ao conhecimento específico de determinada pessoa. É a sua forma individual de ver o mundo, suas crenças e valores. Este conhecimento é internacionalizado e compartilhado coletivamente por meio das relações sociais e através de treinamentos, e experiências práticas (WIERINGA, ET AL, 2018). Já o conhecimento explícito é de fácil compartilhamento entre as pessoas que compõem uma organização, visto que ele está expresso na linguagem formal, por meio de documentos, manuais, regras, signos e multimídias, resultando em uma educação formal e compreensão dos fatos (NONAKA; KONNO, 1998). Assim, o conhecimento explícito é comunicado facilmente, pois se apresenta de forma organizada, sistematizada e categorizada. O Quadro 1 cita algumas definições sobre conhecimento.

 

Quadro 1 – Definições de conhecimento

Definições de Conhecimento

Autor(es)

É a informação que modifica algo ou alguém, capaz de agir de forma diferente e mais eficaz.

Drucker (1993)

É o ativo intangível de uma empresa, ou seja, é o capital intelectual da organização que gera vantagem competitiva.  

Stewart (1998)

É uma mistura de experiência obtida, valores, informação contextual e insight experimentado que proporciona inovação.

Davenport e Prusak (1999)

É a informação que objetiva atender às necessidades dos indivíduos e das organizações para que ambos tenham uma melhor qualidade de vida.

Castells (1999)


Fonte: Elaborado pelos autores (2022).

Os conceitos citados no Quadro 1 estão em consonância entre si à medida que todos eles definem o conhecimento como algo que propicia a mudança do indivíduo ou da organização com vistas à melhoria (qualidade de vida, vantagem competitiva, inovação, ação mais eficaz). 

Em relação à noção de prática (prática organizativa), esta é uma unidade fundamental para a existência de uma COP. O conceito de prática indica ‘fazer’, “tanto em termos históricos quanto em contextos sociais que dão estrutura e significado ao que está sendo feito” (WENGER, 1998, p. 47). Os contextos históricos, sociais e estruturais onde as ações ocorrem devem ser reconhecidos (SOLE; EDMONDSON, 2002), pois é por meio destes contextos que os indivíduos aprendem e adquirem conhecimentos e competências. 

A prática organizativa, entretanto, envolve linguagem, ferramentas, funções, procedimentos, regras, capacidades incorporadas, visões de mundo compartilhadas, enfim, envolve elementos explícitos e implícitos (SOLE; EDMONDSON, 2002). Os objetos, porém, trazem em sua essência um conjunto de práticas consolidadas e compartilhadas socialmente na comunidade de prática (SWAN ET AL., 2007). 

Assim, a prática organizativa se apresenta como uma atividade coesa padronizada socialmente em termos de entendimento e saber, onde o saber não está separado do fazer (GHERARDI; NICOLINI, 2001). É por meio da prática que se conhece e aprende nas organizações, gerando-se o conhecimento que é aplicado no trabalho. 

De acordo com Swan et al. (2007), a prática funde tanto as dimensões individuais e coletivas dos praticantes como também os elementos tecnológicos e humanos na medida em que descreve e explica os modos como se faz, os corpos de conhecimento e as situações que se desenvolvem em determinado cenário de trabalho. O Quadro 2 apresenta algumas definições de prática.

 

Quadro 2 – Definições de prática

Definições de Prática

Autor(es)

É a forma de dar sentido e descobrir o mundo.

Pickering (1990)

É a ponte entre o trabalho e a inovação.

Brown e Duguid (1991)

É a articulação entre processos históricos, materiais e humanos por meio dos conhecimentos no trabalho e na organização.

Gherardi (2000)

É o reconhecimento dos contextos social, histórico e estrutural nos quais a ação ocorre. 

Sole e Edmondson (2002)

Fusão das dimensões individuais e coletivas dos praticantes como também dos recursos humanos e tecnológicos, que explicam a maneira de fazer, o conhecimento e o contexto em que o trabalho é desenvolvido.

Swan, Bresnen, Newell e Robertson (2007)


Fonte: Elaborado pelos autores (2022).

 

As definições apresentadas no Quadro 2 demonstram aspectos como descoberta do mundo, inovação no trabalho e na organização e relacionamentos pessoais. Entretanto, o contexto onde a prática acontece deve ser considerada.

A comunidade representa as relações entre os indivíduos. Eles interagem compartilhando práticas aprendidas cotidianamente. Latour (1999) cita a relação de humanos e não humanos que transformam organizações gerando novos conhecimentos. 

As COPs, portanto, partem da ideia de que só é possível desenvolver e dominar um conhecimento se houver a vivência diretamente de uma atividade comum (SOUZA-SILVA, 2009). Desta forma, as pessoas precisam interagir em si, trocando experiências em torno de uma determinada prática para construírem significados compartilhados entre eles (VIEIRA, 2006). O Quadro 3 apresenta algumas definições de comunidade de prática.

 

Quadro 3 – Definições de comunidade de prática

Definições de Comunidade de Prática

Autor(es)

É a compreensão da aprendizagem, do trabalho e do desenvolvimento da identidade nas organizações. 

Brown e Duguid (1991)

É a inclusão do histórico social compartilhado e recursos físicos que sustentam e moldam o engajamento mútuo em ação; é a busca por uma empresa pelos indivíduos para se tornarem competentes em um empreendimento através da ajuda compartilhada.

Wenger (1998)

É o envolvimento coletivo de pessoas que desempenham diferentes tarefas. 

Robey, Khoo e Powers (2000)

É a intensificação da aprendizagem e a disseminação do conhecimento entre os membros

Deb (2018)


Fonte: Elaborado pelos autores (2022).

 

As definições compostas no quadro 3 expressam especialmente a interação entre os indivíduos por meio do compartilhamento de práticas que agregam mais conhecimento coletivo e organizacional. Destaca-se, segundo Wenger, McDermott e Snyder (2002) que as COPs podem se formar em qualquer lugar físico ou virtual. Desta forma, os autores elencam premissas que se configuram uma COP:

O nome COP pode ser dado a equipes de trabalhos, arranjos produtivos, redes de relacionamento dentre outros grupos que buscam se relacionar com propósitos semelhantes em prol da aprendizagem.

 

2.2 Atividade artesanal feminina e o mercado de trabalho

 

Historicamente, o trabalho feminino teve seu lugar inscrito no âmbito familiar e foi visto como trabalho não remunerado, relegado a uma posição de inferioridade quando comparado à atuação masculina, notadamente se observado nos estratos sociais mais baixos, o que até o final da primeira metade do século XX ainda tornava a mão de obra feminina desvalorizada como potencial gerador de riqueza em muitas sociedades ao redor do globo (GIDDENS, 2012) 

Conforme orienta Giddens (2012), citando a contribuição de Oakley (2018), acerca da discussão sobre o trabalho doméstico, essa desvalorização decorreu, sobretudo, da emergência da separação entre lar e local de trabalho, o que em consequência tornou invisível o trabalho feminino no interior da família, caracterizando-o como parte do espaço natural da atuação das mulheres, e, portanto, distinto do trabalho real (GIDDENS, 2012), que ocorre fora da casa e é desempenhado pelos homens.

Todavia, em que pesem as transformações ocorridas na visão acerca da importância do trabalho feminino nas sociedades modernas, alguns aspectos têm se mostrado resistentes, e podem ser analisados em termos de condições socioeconômicas, além da indelével questão de gênero como aspecto subjacente à participação feminina no mundo do trabalho, mostrando o quão arraigada é a visão de que o “lugar adequado” da mulher e de sua força de trabalho ainda é o lar (OAKLEY, 2018).  

Observa-se que, a conciliação entre família e trabalho é ainda um grande obstáculo para a inserção da mulher no mercado de trabalho. Gomes, Santana e Silva (2006) destacam que é necessário saber conciliar tempo, energia e atenção para que haja equilíbrio entre trabalho e família. Cramer et al. (2012) destacam ainda a falta de apoio emocional, pois as mulheres sofrem conflitos entre o mercado de trabalho e o lar, que se torna mais complexo quando há filhos pequenos. Neste contexto, as mulheres alimentam um sentimento de culpa, cobrado por elas mesmas ou pela família, em função de dedicar tempo para os negócios em detrimento da família.  

Apesar das mulheres se sentirem culpadas pelo ‘abandono’ do lar, especialmente no papel tradicional de mães e educadoras, por outro lado elas sentem necessidade do trabalho remunerado, o qual lhes proporcionam a libertação da dependência masculina e aumento da autoestima, que não conseguem com o trabalho doméstico (BUENO, 1999).

Nesse sentido, para as mulheres que fazem parte dos estratos sociais inferiores, o lar mostra-se como o único cenário possível. Para Barros e Mourão (2018), durante muito tempo as mulheres foram excluídas de participar da vida pública, e tiveram como principal atuação o âmbito das tarefas domésticas, reforçando a noção corrente e hegemônica de que quaisquer outras possibilidades eram consideradas não apenas contrárias à vocação socialmente construída para os afazeres domésticos, como reserva de mão de obra feminina, e que o contrário disso as colocaria em situação de degradação social. 

Sob essa perspectiva, conforme Picchio (2018), quatro são as características do mercado de trabalho feminino que se apresentam de forma surpreendente como constantes, a saber: a ausência de trabalho remunerado para grande número de mulheres; a carga de trabalho doméstico que é executado por mulheres em situação de assalariamento; a segregação do trabalho feminino, e o número substancial de mulheres em situação de pobreza.

Essa posição reafirma a segregação ocupacional feminina em termos de situação local, onde a dominância masculina dava-se até então pela natureza mesma da atividade que ocorre “fora de casa”, e mesmo diante da necessidade de incorporar o trabalho da mão de obra feminina, esta se manteve em situação de trabalho não especializado e subalterno ao comando laboral masculino (GIDDENS, 2012).

Por outro lado, tem-se a atividade artesanal vista como aquela desenvolvida pelo “indivíduo que exerce um ofício, produz bens materiais para a comercialização sem que haja repetidores industriais, ou ainda [é] o indivíduo que exerce, por conta própria, uma arte, ou ofício manual” (LEMOS, 2011, p. 14), dentro de um quadro de participação de núcleos familiares, em sua maioria situados nas regiões mais pobres, cujo trabalho expressa o esforço de sobrevivência mediada pela utilização da matéria-prima disponível (LEMOS, 2011), tal como ocorre com a produção oleira ora em foco.

Diante disso, conforme Barbosa e D’Ávila (2014), a mulher artesã tem na essência do desempenho do seu trabalho que lidar no dia a dia com a afirmação de ocupar um papel naturalizado como sexuado e desigual, acumulando as atividades domésticas, “da casa”, “os afazeres de mulher” e a subalternidade em relação ao protagonismo masculino. 

Com isso, diante da citada combinação dos fatores essenciais para a compreensão do objeto ora em estudo – a produção artesanal como recurso último de sobrevivência das famílias oleiras e a participação maciça da mão de obra feminina como coadjuvante da hegemonia laboral masculina – ao analisar-se o contexto de origem da organização das mulheres artesãs do bairro Poty Velho, fez-se o reconhecimento da influência do triplo contexto: o histórico, o material e o humano onde a atividade aconteceu.

 

3 Metodologia

 

Para atingimento do objetivo proposto, realizou-se um estudo exploratório-descritivo, qualitativo, alinhado as técnicas de observação não-participante e entrevistas semiestruturadas. Os procedimentos metodológicos adotados para a pesquisa encontram-se destacados de forma esquemática e sintética na figura 1, os quais serão descritos a seguir.

 

Figura 1 - Procedimentos metodológicos da abordagem qualitativa

Fonte: Elaborado pelos autores (2022)

 

O contexto da pesquisa compreende o bairro mais antigo da cidade de Teresina, o Poty Velho, localizado na Zona Norte da capital, situado na confluência entre os Rios Poti e Parnaíba. A partir da expansão dos limites territoriais da cidade, essa área passou a ser habitada pela população de baixa renda que se dedicou às atividades comerciais e de subsistência, com destaque para a atividade de captação de argila para a produção de tijolos e telhas. 

Dessa forma, foi sendo definida a vocação do bairro, que atualmente abriga o Polo Cerâmico de Teresina e a Cooperativa de Artesanato do Poty Velho – COOPERART, escolhida como o lócus da presente pesquisa. 

Buscando compreender o fenômeno em análise e considerando a percepção das artesãs, foram selecionadas uma gestora (presidente) da cooperativa e duas artesãs (cooperadas) para serem entrevistadas individualmente. A escolha das participantes foi definida de forma intencional, caracterizando a amostra como não-probabilística, por conveniência (MERRIAM, 1998). Agendou-se inicialmente o dia e horário da entrevista com a presidente da Cooperativa e, posteriormente realizaram-se a entrevista com mais duas artesãs cooperadas que estavam na COOPERART no momento de outra visita. A escolha da presidente foi essencial para resgatar o surgimento da cooperativa, visto que a presidente também foi a iniciadora do movimento. A escolha das outras duas artesãs levou em consideração a disponibilidade das mesmas no horário da segunda visita à cooperativa. 

Para a coleta dos dados foram adotadas as técnicas da observação não-participante e da entrevista individual. Optou-se por realizar entrevistas semiestruturadas com três artesãs associadas da COOPERART. O roteiro de entrevista foi agrupado em três blocos: o primeiro correspondente ao contexto de origem (coadjuvância feminina e descoberta do protagonismo feminino); o segundo referente a projeção da atividade artesanal feminina e o terceiro relativo à consolidação da prática artesanal feminina. Para cada bloco, foram formuladas questões voltadas aos processos históricos, materiais e humanos, com embasamento nos pressupostos teóricos de Gerardhi e Nicolini (2000) e Sole e Edmonson (2002).

A coleta de dados se deu em dois momentos: primeiramente realizou-se a entrevista in loco no dia 16 de janeiro de 2019 com a presidente da COOPEART. As outras duas entrevistas foram realizadas em 15 de novembro de 2021. As entrevistas foram gravadas e transcritas. Porém, justifica-se o grande intervalo de tempo entre a primeira e as demais entrevistas pelos seguintes motivos: 1) a primeira entrevista foi planejada e agendada com antecedência. Após a realização desta entrevista, fez-se a transcrição da mesma e analisou-se as informações coletas no campo e nos materiais observados. Essa atividade (transcrição e análise) durou cerca de 6 meses. Porém, no segundo semestre de cada ano, as artesãs têm aumento na produção, com foco nas festividades natalinas e carnavalescas. Dessa forma, deixou-se para prosseguir com as entrevistas após o carnaval do ano de 2020, período em que iniciou o lockdown em todo o Brasil como alternativa de segurança de saúde púbica em decorrência da crise pandêmica ocasionada pelo coronavírus SAS-CoV-2 (COVID-19). 

Diante do contexto de pandemia, na qual as empresas de produtos e serviços ficaram fechadas por mais de 1 ano, decidiu-se por dar continuidade as entrevistas apenas quando a maioria da população teresinense foi contemplada com as duas doses emergências da vacina contra o coronavírus. Observou-se que o período de tempo entre as entrevistas não traria danos aos resultados da pesquisa, visto que a presidente e cooperadas da COOPERAT permaneciam as mesmas.

Para o tratamento dos dados utilizou-se a análise de conteúdo, que requer a definição de categorias, as quais foram definidas com base no aporte teórico. Franco (2008) explica que estas categorias podem ser criadas a priori quando são pré-estabelecidas em função da busca a uma resposta específica do pesquisador ou podem ser definidas a posteriori, emergindo do discurso e do conteúdo das respostas, exigindo constante retorno ao material coletado e à teoria. Desse modo, considerando o aporte teórico de Gerardi e Nicolini (2000) e Sole e Edmonson (2002) foram definidas a priori as seguintes categorias analíticas: processos históricos, materiais e humanos.

O desenvolvimento da análise de conteúdo aconteceu em três fases, sendo a primeira de pré-análise, onde foi realizada a transcrição das entrevistas, foram definidas as categorias de análise com base no aporte teórico e feita a criação de arquivo base para as informações. Na segunda fase, correspondente à exploração do material, foi efetivada a leitura das entrevistas, bem como a seleção dos trechos das entrevistas de acordo com as categorias pré-estabelecidas. A terceira fase relativa ao tratamento dos resultados envolve as inferências e interpretações das falas. Nessa etapa, foram utilizados quadros e figuras a fim de auxiliar o entendimento dos resultados obtidos. Diante do exposto, na próxima seção faz-se a análises dos resultados obtidos no estudo. 


4 Análise dos resultados

 

A comunidade de prática considerada na pesquisa é a COOPERART, a qual analisou-se a prática de três artesãs da cooperativa, sendo elas denominadas de A1PC (artesã e presidente da cooperativa), A2C e A3C (artesãs e cooperadas). A seguir serão apresentados os resultados identificados nas três categorias analisadas: processos históricos, processos materiais e processos humanos, considerando as fases de coadjuvância feminina e despertar do protagonismo, projeção da atividade artesanal e consolidação da prática artesanal. 

 

4.1 Processos históricos

 

A história das mulheres do Poty é remetida inicialmente ao árduo trabalho de dupla jornada (afazeres domésticos e auxílio ao trabalho de pesca masculina e na olaria), passando pela descoberta de que são capazes de produzirem artigos próprios e criarem uma cooperativa.

 

4.1.1. Processos históricos na coadjuvância feminina

 

Os moradores do bairro Poty Velho, por habitarem na confluência entre os rios Poty e Parnaíba, inicialmente tinham a pesca como principal atividade de subsistência e comercial. Porém, por conta da expansão da construção civil houve um aumento na demanda por artefatos de olaria (telhas e tijolos) o que levou a migração da mão de obra feminina da atividade coadjuvante pesqueira para o serviço de oleira, porém com condições de trabalhos insalubres (SILVA; SCABELLO, 2013). 

 

Trabalhei 22 anos de minha vida na Olaria, carregando de quinze a dezessete rolos de tijolos na cabeça, em pleno sol quente, no horário de sete às onze horas e de treze às dezessete horas [...] ajudávamos os pais ou maridos [...]. Era um trabalho muito pesado e ganhávamos muito pouco. As donas de casa não tinham nenhuma renda (AP1C). Tinha que trabalhar para ajudar a criar o restante dos irmãos, como eu era de menor, fui para olaria (A2C). Na olaria eu comecei desde pequena [...] a gente ia para não ficar só em casa [...] quase todas nós aqui, artesãs, já passamos pela olaria (A3C). 

 

Como observado nas falas das artesãs, elas tinham um trabalho exaustivo de ajudar na pesca e no carregamento de tijolos e telhas e, se fossem donas de casas, não eram remuneradas por tais trabalhos. Oakley (2018) destaca a resistência sobre o trabalho feminino em condições socioeconômicas (especialmente de baixa renda), no qual, nessas comunidades ainda há a predominância da separação de gênero, considerando que o lugar adequado da mulher é o lar. Embora as artesãs ajudassem nas atividades pesqueira e da olaria, não eram reconhecidas como trabalhadoras.  

Com a modernização dos materiais utilizados na construção civil, as atividades de olarias ficaram obsoletas, ocasionando uma crise econômico-financeira na comunidade. Em concomitância, foi inserida na comunidade uma pessoa provinda do estado do Maranhão, considerada fundadora da atividade artesanal utilitária (potes, jarros de plantas e filtros) absorvendo grande parte da mão-de-obra masculina ociosa e em crise frente ao desemprego gerado pela obsolescência da olaria (SILVA; SCABELLO, 2013). 

Nesse ínterim, as mulheres foram incluídas nessa nova atividade, mantendo-se a divisão natural do trabalho, ou seja, os homens fabricavam as peças e as mulheres faziam a parte de adorno, consideradas a parte inferior. 

 

Começamos a ajudar timidamente os pais ou maridos com a pintura dos produtos [...] Em 2003, as mulheres do Poty passaram a participar de feiras por todo o Brasil, por meio dos projetos das instituições parceiras. Nessas feiras víamos que a maior demanda para o artesanato era feminina, diferente daqui que era um trabalho de homem (A1PC).

 

Percebe-se que a atividade artesanal inicial na comunidade era tipicamente masculina. E, novamente as mulheres eram apenas coadjuvantes do trabalho artesanal masculino. A participação das artesãs nas feiras oferecidas pelo Sebrae, foi o principal suporte para que elas despertassem enquanto ‘artesãs’.

 

4.1.2 Processos históricos no despertar do protagonismo feminino

 

A participação das mulheres em feiras oferecidas por instituições como o Sebrae e a Fundação Wall Ferraz, em outras localidades do país, fez com que elas percebessem que também eram capazes de exercer a atividade de artesanato.

 

Nessas feiras víamos que a maior demanda para o artesanato era feminina, diferente daqui que era um trabalho de homem [...]. Essas mulheres começaram a conversar e sentiram a necessidade de criar um produto artesanal em que elas tivessem participação [...]. Procuramos o Sebrae que ofertou o curso de modelagem e montagem de bijuterias em cerâmica para vinte e sete mulheres da Olaria (A1PC). Eu gosto muito de correr atrás do que eu quero e me tornei uma artesã na arte de argila (A2C). A gente começou fazendo as bolinhas de argila e com isso fomos montando as bijuterias (A1C).

 

Através do contato com outras culturas organizacionais em feiras e eventos de artesanato, as mulheres perceberam que a lógica das suas práticas organizativas da atividade era invertida, tendo nas outras culturas, as mulheres como protagonistas na produção. Assim, começaram a interagir entre si e foram em busca de capacitação, conforme a fala da A1PC. 

Reconhecendo sua ausência de habilidade técnica (fabrico do artesanato) procuraram ajuda para capacitação junto aos órgãos de apoio. Uma vez capacitadas, conquistaram autonomia suficiente para iniciar sua própria produção, caracterizando uma nova perspectiva do artesanato (bijuterias). Observa-se então, o surgimento de uma comunidade de prática, pois tal comunidade é a intensificação da aprendizagem e a disseminação do conhecimento entre os membros (DEB, 2018). 

Observa-se o incômodo e ao mesmo tempo a vontade das artesãs em serem vistas. O que fez com que despertassem para atividade de artesanato feminino. Segundo Bueno (1999), as mulheres sentem vontade da libertação da dependência masculina, que só é possível quando adquirem um trabalho remunerado, aumentando a sua autoestima. 

Embora as mulheres passassem a fabricar peças de artesanato diferentes, na comercialização do que era produzido permaneciam subordinadas a hegemonia da atividade masculina.

A Associação apoiou as artesãs com a comercialização das bijuterias (A1PC).

Acomercialização da produção feminina era acessória à comercialização dos artefatos utilitários masculinos.

 

4.1.3 Processos históricos na projeção da atividade artesanal feminina

 

Com a aceitação mercadológica dos produtos de artesanato feminino (bijuterias) surgiu a necessidade de uma organização formal (cooperativa), saindo de uma condição de prática periférica para a criação de uma estrutura dual de produção artesanal: uma atividade constituída originalmente pelo artesanato utilitário masculino e outra da atividade artesanal decorativa, iniciada pelas mulheres.  Depois, as mulheres apresentaram outra vertente: artigos de moda feminina e artigos religiosos (bijuterias e terços de argila) reforçando o protagonismo feminino.

 

A produção de bijuterias era desorganizada. Cada uma em suas residências, mas após o projeto “Moda mais Artesanato” sentimos a necessidade de nos organizarmos em grupo [...] em 8 de setembro de 2006 inauguramos a COOPERART com 30 mulheres (A1PC). Como a gente queria ser a diferença, tinha que ser só mulher [...] a gente queria uma coisa que representasse nossa luta, nossa independência, decidimos formar a cooperativa de mulheres (A2C). Surgiu essa ideia com a A1PC e foram feitas reuniões e foi aceita essa ideia que a gente teve (A3C).

 

Com a criação da COOPERART, os saberes passaram a ser compartilhados de forma mais organizada. Segundo Wenger (1998), quando as pessoas se reúnem em prol de um mesmo objetivo, com a inclusão do histórico social compartilhado e recursos físicos que sustentam e direcionam o engajamento entre as pessoas e agem para a criação de um empreendimento, através da ajuda compartilhada, pode-se dizer que esta é uma comunidade de prática. 

Na fala da A1PC ela revela que antes da cooperativa, a produção era desorganizada, onde cada artesã produzia em sua casa, não havendo a interação entre elas, o que foi possibilitado com a criação da cooperativa. A fala da A2C apresenta a vontade de desenvolverem uma prática diferenciada, destacando a independência da mulher nesse contexto histórico. A A3C relata a interação por meio das reuniões.

 

4. 1. 4 Processos históricos e a consolidação da prática artesanal

 

Como parte da formalização sob o modo cooperativo, as artesãs tiveram contato com uma arquiteta recém-formada interessada na inovação da produção, sugerindo a criação de bonecas estilizadas. Inicialmente a arquiteta apresentou uma proposta de bonecas baseadas na história de vida das artesãs, a qual foi modificada por elas atribuindo-lhes personalidades e características delas próprias, revelando a identidade das artesãs. Foram criadas cinco bonecas, apresentadas na figura 2.

 

Figura 2 - Bonecas estilizadas - Mulheres do Poty 

Fonte: autores (2022).

 

A primeira boneca criada foi a Mulher Religiosa, pois acreditam que Nossa Senhora do Amparo surgiu às margens do Rio Poty; a segunda boneca criada foi a Mulher do Pescador, devido à tradição da pesca que existe até hoje. Quando o homem vai pescar, leva com ele a esposa ou a filha para ajudar a limpar o peixe ou a remar; a terceira boneca foi a Mulher da Olaria, pois foi na Olaria que tiveram o ‘primeiro’ trabalho; a quarta boneca foi a Mulher Ceramista, que representa a criação da Cooperativa e a participação na cerâmica; a quinta e última boneca desenvolvida nessa coleção é a das Continhas que representa todas elas, por meio do trabalho com bijuterias. 

No relato da A1PC é possível destacar a consolidação da atividade artesanal feminina:

Com essa coleção participamos em 2007 do Concurso “Casa Piauí Design. O “Mulheres do Piauí” chamou a atenção da imprensa e conquistamos o primeiro lugar. A artesã passou a ter visibilidade. O projeto representava nossa história, nossa identidade cultural. Em 2008 criamos a coleção Cambo, que contava a história dos peixes do Poti Velho, novamente conquistamos o primeiro lugar no Concurso “Casa Piauí Design”. Nos anos de 2009, 2012 e 2015 conquistamos o Selo de Qualidade Sebrae com validade de 3 anos. 

A fala destacada demonstra uma conquista para as mulheres do Poty, as quais saíram de uma condição de dependência masculina para a conquista da própria independência financeira, profissional e motivacional. 

 

4.2 Processos Materiais

 

Os processos materiais que envolvem a trajetória profissional das mulheres do Poty foram se modificando desde o início da atividade artesanal utilitária até a atual atividade artesanal decorativa. 

 

4. 2. 1. Processos materiais na coadjuvância feminina 

 

A gênese da atividade artesanal das Mulheres do Poty remete à fase inicial de coadjuvância feminina, onde os processos materiais eram bastante rústicos e o papel das mulheres era auxiliar os homens durante a produção artesanal de tijolos e telhas para a indústria da construção civil. Isso pode ser constatado nos relatos a seguir.

 

A gente trabalhava em olarias carregando tijolos ou ajudando os pais e maridos na pesca e nos afazeres domésticos (A1PC). Nós erámos só para carregar para a olaria, para dentro da caieira (A2C).

 

As mulheres, além de serem responsáveis pelo trabalho doméstico, também auxiliavam os homens na pesca com a limpeza e o preparo do peixe. Por conta da expansão da construção civil houve um aumento na demanda por artefatos de olaria (tijolos e telhas), levando a migração da mão de obra feminina da atividade pesqueira para o serviço de olaria. 

O trabalho era árduo e precário, sendo realizado de forma insalubre. As mulheres carregavam tijolos na cabeça, normalmente em horários de sol quente, pela manhã e tarde. Tal realidade corrobora com o entendimento de Giddens (2012), para quem o trabalho feminino inscrito no âmbito familiar era visto como trabalho não remunerado. 

Com as novas exigências do mercado da construção civil, requerendo inovação nos materiais, as atividades de olarias foram substituídas, pois não gerava mais renda na comunidade. Nesse período, com um novo morador na comunidade, oriundo do Maranhão, iniciou-se uma nova atividade, do artesanato utilitário (potes, jarros de plantas e filtros). Ele treinou os moradores que se encontravam ociosos devido a obsolescência da olaria. 

Com essa nova atividade, as mulheres também foram inseridas, mas como coadjuvantes ao trabalho masculino. Na olaria, elas carregavam barro, telhas e tijolos, com a atividade artesanal, as mulheres eram apenas responsáveis pelo adorno. 

 

4. 2. 2. Processos materiais no despertar do protagonismo feminino 

 

Segundo os relatos das entrevistadas A1PC e A2C, enquanto trabalhavam no adorno do artesanato utilitário, as artesãs sentiram a necessidade de produzir um artesanato com o qual se identificassem e que retratasse sua identidade.

 

Começamos a ajudar os pais ou maridos com a pintura dos produtos e sentimos a necessidade de criar um produto artesanal em que tivéssemos participação (A1PC). A gente queria uma coisa que representasse nossa luta e independência, nos organizamos através de um grupo de bijuteria (A2C). A gente começou fazendo bolinhas de argila e fomos montando as bijuterias (A3C).

 

A participação em feiras e eventos de comercialização do artesanato utilitário em outras cidades fez com que as mulheres do Poty compreendessem que a atividade artesã não era uma atividade penas masculina. 

Nos discursos de A2C e A3C, percebe-se que as artesãs adquiriram o domínio do aprendizado em conjunto, construíram a prática e formaram uma comunidade de prática, evidência que se alinha aos pressupostos de Sousa-Silva (2009) e Vieira (2006), os quais afirmam que dominando conhecimentos vivenciados em uma atividade comunitária experienciados entre o grupo, são construídos significados que são compartilhados entre as praticantes. 

 

4.2.3 Processos materiais na projeção da atividade artesanal feminina

 

As Mulheres do Poty, sabendo que eram capazes de produzir algo novo, passaram a ver a possibilidade de implementar o artesanato numa perspectiva feminina. Inicialmente, tal produção teve como enfoque peças decorativas, tais como potes e jarros, animais, enfeites para parede e jardim, entre outros. 

Posteriormente, o artesanato decorativo deu origem a um novo produto, caracterizado como artigos de moda feminina e religiosos. Para isso, buscaram se organizar e se capacitar a fim de produzirem bijuterias. Para A1PC, a parceria com o Sebrae foi fundamental nessa conquista.

 

O Sebrae ofertou o curso de modelagem e montagem de bijuterias em cerâmica para 27 mulheres da Olaria. Passamos a fabricar pedrinhas de cerâmica para o estilista piauiense José Feitosa que iria trabalhar em sua coleção, o jeans bordado com a cerâmica (A1PC).

 

A figura 3 apresenta os produtos fabricados a partir das bolinhas de argila transformadas em artigos de moda feminina e artigos religiosos para serem vendidos ao público em geral.

                                        

Figura 3 – Artigos de moda feminina e artigos religiosos 


Fonte: Autores (2022).

Segundo a artesã A2C, a argila é a matéria-prima principal utilizada para a produção do artesanato decorativo e associada à diversas ferramentas que possibilitam a modelagem, tanto das peças utilitárias quanto decorativas.

 

Nossa matéria principal é a argila. Uma espátula de cano ou madeira, palito de churrasco e de dente, escova, bucha, cavador, nossas ferramentas são essas. Um galão para lavar a mão. A gente tem aqui sala de produção e um grupo de mulheres que produzem peças utilitárias, mas peças decorativas são feitas em casa (A2C).

 

A artesã A2C destaca que os processos materiais de fabrico do artesanato utilitário têm sido realizados em uma sala própria para produção, enquanto os do artesanato decorativo são feitos em ambiente doméstico. Para Wenger, McDermott e Snyder (2002) as COPs podem se formar em qualquer lugar físico ou virtual. Sendo assim, como uma comunidade de prática, as artesãs puderam definir em quais espaços as práticas seriam realizadas, em casa ou na cooperativa. 

 

4.2.4 Processos materiais na consolidação da prática artesanal feminina

 

A consolidação da prática artesanal feminina foi motivada pela arquiteta Indira Matos que, interessada na inovação da produção, sugeriu a criação de bonecas estilizadas e possibilitou o desenvolvimento do artesanato de escultura, conforme relatado pelas artesãs A1PC e A2C.

 

Em 2007, a arquiteta Indira Matos nos procurou para trabalhar voluntariamente [...] conversou com cada mulher para ouvir a sua história de vida. Depois, retornou com cinco desenhos de bonecas que representavam as Mulheres do Poti: a Mulher Religiosa, a Mulher do Pescador, a Mulher da Olaria, a Mulher Ceramista e a Mulher das Continhas (A1PC). A gente teve um curso de escultura e de torno com o professor Ronaldo, e essas peças nós desenvolvemos. As esculturas são feitas por nós e a parte utilitária que são copos, xícaras, pratos e bandejas é essa parte aqui de barbotina (A2C).

 

Segundo A1PC, a proposta da arquiteta foi baseada na história de vida das artesãs, sendo modificada por elas ao atribuir-lhes personalidades e suas próprias características, revelando a identidade das Mulheres do Poty. Para Wenger, McDermott e Snyder (2002), o desenvolvimento do senso comum de identidade encontra-se entre uma das premissas que configuram uma COP. Dessa forma, a criação das bonecas estilizadas desponta como resultado da consolidação da prática organizativa das cooperadas, gerando o senso de pertencimento a uma comunidade de prática artesã, no caso, as Mulheres do Poty.

Assim sendo, a evolução dos processos materiais ocorrida entre as fases de coadjuvância, despertar, projeção e consolidação das artesãs foi fundamental para a efetivação das suas práticas organizativas, auxiliando o protagonismo e a emancipação das Mulheres do Poty.

 

4.3 Processos Humanos

 

A prática de uma atividade tem relação com as dimensões individuais e coletivas das pessoas que exercem tais práticas, bem como com as ferramentas materiais e tecnológicas. É por meio da descrição e explicação da maneira como se faz tais atividades que a prática se funde (SWAN ET. AL, 2007).

As mulheres do Poty descrevem os processos humanos por meio da interação entre as sócias da cooperativa, que juntas, são hoje criadoras e empreendedoras de suas próprias produções.  A figura 4 apresenta um dos momentos em que as mulheres estão exercendo a prática da atividade artesã, por meio da produção das bonecas estilizadas.

 

Figura 4 – Interação entre as artesãs para confecção das bonecas estilizadas 

 Fonte:  Arquivos da artesã A1PC (2022).

 

4.3.1 Processos humanos na coadjuvância feminina

 

Considerando o mesmo relato das artesãs A1PC e A3C nos processos anteriores, aqui também se faz necessário analisá-los, porém, com o viés voltado para os processos humanos. 

 

A gente trabalhava em olarias carregando tijolos, ou ajudando os pais e maridos na pesca [...] (A1PC). [...] quase todas nós aqui, que somos artesãs, já passamos pela olaria (A3C). 

 

A fala da A1PC retrata que existia o trabalho em grupo, mas era composto apenas pela própria família (pai, mãe e filhos). Nesse período não existia a prática do artesanato na comunidade analisada. A A3C deixa claro em sua fala que, antes de exercerem a atividade do artesanato, todas as mulheres realizaram trabalhos na olaria, reforçando que desde o início da fundação do bairro, as moradoras trabalharam em grupo nas atividades extra domésticas. 

Embora tenha sido um momento difícil na vida das mulheres analisadas, cabe aqui reforçar que as atividades nas quais elas se submeteram antes do artesanato foi o que contribuiu para se tornarem o que são hoje, conforme relato da A3C:


A gente já começou a conhecer um pouco das olarias [...]. E isso serviu muito para agora [...] tinha todo aquele preparo que tinha nas olarias, então quando chegou a oportunidade da cooperativa [...] do artesanato, já serviu muito pra gente que já trabalhou na olaria. Era uma referência.

 

O relato demonstra que o preparo que as mulheres tiveram durante o tempo que ajudavam os maridos ou pais na olaria foi importante para a atividade que passaram a exercer posteriormente.

 

4.3.2 Processos humanos no despertar do protagonismo feminino

 

As instituições de capacitação que sugiram nesse período para auxiliarem na melhoria do artesanato utilitário foram essenciais para que as mulheres traçassem uma nova realidade para elas próprias, pois passaram a representar a Associação dos Artesãos Ceramistas do Poty Velho em eventos oferecidos por tais instituições, levando-as à percepção, por meio da interação com outras mulheres, de que eram capazes de produzirem seu próprio artesanato. 

 

As mulheres do Poty passaram a participar de feiras [...] e víamos que a maior demanda do artesanato era feminina [...]. Essas mulheres começaram a conversar e sentiram a necessidade de criarem um produto artesanal (A1PC). A gente começou a engatinhar com feiras, eventos e estamos aqui (A2C).

 

A participação em feiras fez com que as mulheres interagissem entre si e fizessem planejamentos para o futuro delas, corroborando com Lave e Wenger (1998) que cita que onde há interação entre pessoas, há aprendizagem. E essa aprendizagem pode ser vista no próprio desenvolvimento humano e profissional das mulheres do Poty ao criarem uma prática tipicamente feminina. 

 

4.3.3 Processos humanos na projeção da atividade artesanal feminina

 

Com os planos para um artesanato feito apenas por mulheres, as artesãs fizeram reuniões até criarem a COOPERART. 

 

Então surgiu essa ideia com a A1PC e foram feitas reuniões e foi aceita essa ideia que a gente teve, esse plano, graças a Deus deu certo e vem dando certo (A3C).

 

Com a criação da COOPERART o trabalho em equipe se intensificou. 

 

No trabalho de equipe a gente tem 12 mulheres de grupo de produção, a gente pega uma encomenda [...] e quem quiser participar [...] vem produzir. A gente está com caderno de ponto, e é por hora trabalhada (A2C). Nós temos o grupo e temos a A2C que fica à frente da sala de produção, então toda vez, quando vamos produzir uma peça, ou esmaltar, no grupo, a gente coloca lá [...] (A3C). 

 

Com base nos pressupostos de Wenger, McDermott e Snyder (2002) a COOPERART pode ser considerada uma COP, pois ela foi formada por um grupo de mulheres com os mesmos objetivos (criação de uma prática feminina); interação contínua com aperfeiçoamento das relações sociais, visto que as artesãs participam de treinamentos e outros eventos, além das reuniões em que reforçam e aperfeiçoam as atividades; buscam resolver problemas juntas; têm estatuto, regimento interno, folha de ponto, registros de entradas e saídas financeiras, dentre outros documentos de organização do conhecimento e da comunidade; estão satisfeitas pessoalmente em serem artesãs e vêm desenvolvendo um senso comum de identidade. 

 

4.3.4 Processos humanos na consolidação da prática artesanal

 

A prática artesanal atual encontra-se em fase de consolidação na medida em que as mulheres do Poty passaram a ser reconhecidas pela sociedade dentro do seu próprio estado (Piauí) e em outros estados brasileiros. Esse reconhecimento social tem demonstrado o quanto elas se sentem realizadas e satisfeitas. 

 

Eu me sinto realizada, porque filha de mãe solteira, oleira, negra, sem estudo chegar aonde eu cheguei, todo dia eu agradeço a Deus por isso [...] Eu estou aqui como mulher de negócios e usada por Deus (A2C). Foi algo que veio para mudar a vida de nós artesãs e foi aceita muito aqui pelo público [...]. Cada dia que passa eu me sinto mais realizada [...] E graças a Deus, hoje eu tenho essa profissão e hoje eu não me vejo sem a cooperativa, sem o polo cerâmico porque faz parte da minha história, da minha vida. Eu amo ser artesã (A3C).

 

Wenger, McDermott e Snyder (2002) reforçam que o envolvimento em uma COP deve gerar satisfação pessoal. Essa satisfação é percebida nas falas das artesãs A2C e A3C que estão repletas de emoção e realização por fazerem parte da cooperativa de mulheres. Isso demonstra o quanto a socialização entre elas tem mudado as suas vidas, dando-lhes uma nova oportunidade.

 

5 Considerações finais

 

O presente artigo procurou compreender as práticas organizativas vivenciadas pelas mulheres do Poty que possibilitaram a mudança de sua condição de coadjuvância para um status de protagonismo. Para atingir o objetivo proposto, foram analisados os processos históricos, materiais e humanos em cada uma das quatro fases da trajetória profissional dessas mulheres, a saber: coadjuvância feminina e despertar do protagonismo, projeção da atividade artesanal e consolidação da prática artesanal. Partiu-se da premissa de que a formação de uma comunidade de prática foi fundamental para possibilitar a melhoria profissional e a qualidade de vida tão almejadas pelas artesãs.

A análise dos processos históricos possibilitou a compreensão de que as mulheres do Poty enfrentavam um trabalho árduo nas olarias que foi melhorado com o artesanato de utilitários, mas continuaram sendo coadjuvantes do universo masculino. Na medida em que foram inseridas nas feiras para comercialização do artesanato utilitário, perceberam outras formas organizativas e despertaram para a realização da atividade artesã feminina. A partir daí, cresceram profissionalmente com a produção de artesanato decorativo, de artigos de moda e religioso, passando a criar sua própria cooperativa, a qual puderam se projetar socialmente e alcançaram a independência financeira e a autonomia desejadas.

O exame dos processos materiais auxiliou no entendimento de que as mulheres do Poty inicialmente se envolviam em atividades insalubres como o carregamento de tijolos no sol quente e, mais adiante, o adorno das peças utilitárias, fato que as deixavam sem expectativa de realização profissional, pois eram subaproveitadas. A partir daí, começaram a se organizar para modificar essa realidade. De forma comunitária, iniciaram a produção e comercialização de artefatos de decoração, de moda e religiosos que lhes proporcionaram a realização profissional e o reconhecimento público. A produção passou a ser realizada em ambientes salubres a partir de capacitações recebidas e o trabalho se tornou mais elaborado com a utilização de utensílios e máquinas.

A apreciação dos processos humanos permitiu compreender que as artesãs que, inicialmente tinham pouca interação social e se restringiam ao ambiente doméstico e familiar, passaram a interagir entre si nos grupos de produção, entre as sócias da cooperativa e, hoje são criadoras e empreendedoras de suas próprias produções. Essa integração também aconteceu com outras pessoas que se agregaram ao processo produtivo, tais como professores, capacitadores e por meio do intercâmbio com outras mulheres nas participações em feiras e eventos. As reuniões e o trabalho em equipe passaram a fazer parte da rotina das mulheres do Poty que, nesse percurso, adquiriram reconhecimento público pela sua arte e profissão.

Diante do exposto, foi possível reconhecer a influência dos processos históricos, materiais e humanos na atividade artesanal das mulheres do Poty. Sendo assim, entende-se que tais processos, identificados nas práticas realizadas pelas mulheres em comunidade, possibilitaram a formação posterior de uma comunidade de prática e, consequentemente, sua ascensão profissional. 

Dessa forma, a identificação das práticas adotadas pelas mulheres do Poty possibilitou concluir que a atividade artesanal realizada pelas mesmas se constitui efetivamente como uma comunidade de prática que veio a possibilitar a aprendizagem, o trabalho e o desenvolvimento da identidade nas organizações, como afirmam Brown e Duguid (1991).

Portanto, considerando Wenger, McDermott e Snyder (2002) a COOPERART pode ser configurada como uma COP, pois ela se constitui de um grupo de mulheres com os mesmos objetivos; interação contínua com aperfeiçoamento das relações sociais; buscam resolver problemas de forma conjunta e, principalmente, demonstram a satisfação pessoal em serem artesãs e desenvolverem um senso comum de identidade e pertencimento.

Destaca-se como contribuição teórica do artigo, a ampliação do conhecimento sobre as práticas organizativas artesanais associadas ao mercado de trabalho feminino. Como contribuição prática, enfatiza que o estudo evidenciou a posição inicial de coadjuvância feminina e a posterior situação de protagonismo conquistada pelas mulheres do Poty, a partir da constituição de uma comunidade de prática artesanal feminina.

Como limitação da pesquisa destaca-se o fato de que parte da pesquisa foi realizada durante a pandemia do covid-19, dificultando o acesso observacional de determinadas práticas. Complementar ao estudo, considerou-se que embora a amostra possua representatividade, por se tratar de uma cooperativa onde todas as artesãs executam a mesma prática, acredita-se que a realização das entrevistas com todas as cooperadas, traria mais sustentação aos estudos sobre práticas organizacionais. Como indicação para estudos futuros, sugere-se a realização de uma pesquisa que envolva os artesãos para identificar a percepção deles em relação a trajetória de emancipação das mulheres.  

 

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