VULNERABILIDADE NO BEM-ESTAR SOCIAL E NO CONSUMO FAMILIAR, APÓS A TRAGÉDIA DE BRUMADINHO/MG

VULNERABILITY IN SOCIAL WELFARE AND HOUSEHOLD CONSUMPTION AFTER THE BRUMADINHO/MG TRAGEDY

Elaine Ribeiro de Oliveira, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3556-4239; Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Paraíba, Brasil. E- mail eribeirooliveira@yahoo.com.br
Nelsio Rodrigues Abreu, Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7024-5642; Universidade Federal da Paraíba(UFPB), Paraíba, Brasil E-mail: nelsio@gmail.com
Rita de Cássia de Faria Pereira, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2434-4601; Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Paraíba, Brasil. E-mail: rita_faria@yahoo.com 

 

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RESUMO 

Este artigo tem como objetivo analisar a vulnerabilidade ao consumo e ao bem-estar social, diante da tragédia ocorrida em decorrência ao rompimento da Barragem B1, na Mina Córrego do Feijão, localizada no município de Brumadinho, Minas Gerais, onde várias vidas se escoaram no vale da lama. Optou-se para o estudo dessa pesquisa, o método qualitativo, com entrevistas semiestruturadas dos relatos de história de vida e análise de conteúdo. Para tanto, as principais dimensões detectadas no percurso deste trabalho foram: (a) o sofrimento e as perdas; (b) os meios de subsistências dos familiares; (c) o bem-estar das famílias e dos sobreviventes; (d) o papel do poder público; (e) ações da Vale do Rio Doce para com as famílias afetadas e para com a comunidade. Assim, os moradores são vulneráveis em razão de políticas públicas em não acompanhar o contexto regional e os riscos envolvidos para a população no entorno da empresa causadora do desastre ambiental e financeiros, o que influencia diretamente na vida das pessoas, bem como no tocante ao consumo de bens e serviços essenciais.

 

Palavras-chave: Vulnerabilidade; Bem-estar social; Consumo.

 

ABSTRACT 

This article aims to analyze the vulnerability to consumption and social well-being, in the face of the tragedy that occurred as a result of the rupture of the B1 Dam, in the Córrego do Feijão Mine, located in the municipality of Brumadinho, Minas Gerais, where several lives were drained into the mud valley. The qualitative method was chosen for the study of this research, with semi-structured interviews of life history reports and content analysis. Therefore, the main dimensions detected in the course of this work were: (a) suffering and losses; (b) family members' means of subsistence; (c) the well-being of families and survivors; (d) the role of public authorities; (e) actions by Vale do Rio Doce with the affected families and with the community. Thus, residents are vulnerable due to public policies that do not follow the regional context and the risks involved for the population around the company that caused the environmental and financial disaster, which directly influences people's lives, as well as with regard to consumption. of essential goods and services.

 

Keywords: Vulnerability; Social welfare; Consumption.


 

1 INTRODUÇÃO

              Em meio às diversidades decorrentes e inerentes aos impactos socioeconômicos e ambientais, como desastre natural (GREEN et al., 2021), desabamentos, destruições advindas de terremotos (BHANDARI et al., 2021) e inundações e acidentes por falta de segurança, ocasionados por ingerência administrativa, faz com que pesquisadores questionem e analisem as variáveis e as possíveis medidas efetivas de segurança e prevenção a desastres principalmente de barragens de rejeitos de mineração que ocasionam poluição de rios (GELENCSÉR et al., 2011; GREEN et al., 2021; LI et al., 2021), que ocorrem de maneira global e torna-se presente no Brasil, oportunizando diversas tragédias fatais, como perdas humanas e materiais, que poderiam ser evitadas.

              Tais medidas devem ser privilegiadas em detrimento de qualquer outro interesse, que não seja o bem comum dos atores envolvidos e do lucro abusivo das corporações, sendo por deficiência de gestão e ações preventivas de prováveis desastres.   ao passo que, requer estudos inerentes aos desafios multidimensionais imprevistos, inserção de políticas públicas e o papel do Estado (ARORA; CHAKRABORTY, 2021a).

              Percebe-se a necessidade de ações que visem amenizar os impactos ambientais e socioeconômicos, provocados pelos danos à sociedade (ALCADIPANI; MEDEIROS, 2020), que perpasse para além dos danos ambientais, afetando a sociedade (PEREIRA et al., 2020), a estrutura econômica e psicológica de várias famílias vulneráveis a estas situações desastrosas. Tais impactos socioambientais ameaçam a segurança dos meios de subsistência das comunidades e questionam a sua legitimidade diante das práticas adotadas pela falta de segurança (VENUGOPAL et al., 2019). Visto que, determinados fatores pertinentes a desastres são detectados como crises potenciais, que se tornam perigosas e problemáticas, em relação à subsistência da comunidade afetada (FINSTERWALDER; KUPPELWIESER, 2020), ocasionadas por situações  de fenômenos incontroláveis e indesejáveis.

              Para tanto, entre diversos incidentes, verifica-se que em novembro de 2015, um dos acidentes em relação às barragens que provocou danos, destruições e perdas humanas como material à comunidade local, ocasionada pela mineradora Samarco, ocorrido na barragem do Fundão, localizada no Distrito de Mariana, estado de Minas Gerais. Os rejeitos da lama com os vestígios de metais escoaram para bacia do rio Doce até desaguarem no Oceano Atlântico, ocasionando enormes impactos ambientais e socioeconômicos (ALMEIDA et al., 2018; DO CARMO et al., 2017; FERNANDES et al., 2016; DE OLIVEIRA GOMES et al., 2017; HATJE et al., 2017; QUEIROZ et al., 2018; SEGURA et al., 2016; SOUZA et al., 2021).

              Pode-se detectar poluições e contaminações na água com grande concentração do citogenotóxicos (GOMES et al., 2018; QUADRA et al., 2019); SEGURA et al., 2016), além de consequências graves à saúde da comunidade a longo prazo (DOS SANTOS et al., 2021). Porém, após a ocorrência da Barragem em Mariana- MG, pela reponsabilidade da mineradora Samarco, como citado acima, de acordo com relatos e pesquisas, a comunidade continua sem assistência e vulneráveis quanto às suas perdas familiares e às suas moradias. 

              Dessa forma, quatro anos após a tragédia em Mariana, um novo desastre fatal, relacionado à barragens, ocorreu aproximadamente às 12:00 horas, horário do almoço dos funcionários da mineradora Vale, onde foram surpreendidos pelo rompimento da barragem B1, na Mina Córrego do Feijão, de responsabilidade da mineradora Vale, localizada no município de Brumadinho, estado de Minas Gerais, em 25 de janeiro de 2019, deixando 270 mortes e 5 pessoas desaparecidas, até o presente momento, envolvendo rejeitos de lama da barragem, além dos impactos socioeconômicos e ambientais.

              Portanto, destaca-se que, não se trata de transferir responsabilidades entre corporação e poder público. Contudo, não se pode negligenciar que estes órgãos assumem um papel importante nessa problemática oportunizada à sociedade de forma trágica e inconsequente, segundo Bankoff et al. (2013) pois sabe-se que, a vulnerabilidade social não pode ser despercebida frente a interesses corporativos e econômicos. Nesse sentido, é necessário um olhar por parte dos envolvidos que transcenda o aspecto meramente econômico e que se incida o impacto da catástrofe sob as famílias afetadas pela tragédia da comunidade de Brumadinho/MG. 

              Deste modo, este artigo, procura retratar a vulnerabilidade e o bem-estar social das famílias vitimadas pela tragédia de Brumadinho, o que possibilitou o seguinte questionamento: Quais foram os impactos sociais provocados pela tragédia da mineradora Vale em Brumadinho, às famílias afetadas e à comunidade local? 

              Para responder a essa questão, esse trabalho buscou compreender a vulnerabilidade nas formas de consumo e no bem-estar social, diante da tragédia de Brumadinho, por meio das dimensões detectadas na pesquisa: sofrimento e perdas, subsistência das famílias, expectativa de vida diante das perdas, e em especial ao bem-estar social das famílias e sobreviventes ao desastre, bem como das trajetórias e histórias de vida dos participantes da pesquisa.

 

2 REFERENCIAL TEÓRICO

 

2.1 Consumo e identidade social

              Na complexidade do estudo do comportamento do consumidor, percebe-se que o consumidor ou o indivíduo busca respostas em suas identidades comportamentais, identificadas em determinadas fases de sua vida fragmentada, devido a algumas dimensões sociais, culturais e econômicas. Assim, os significados e símbolos de identidade social indicam aos outros como uma pessoa se vê em relação a culturas, comunidades e grupos (GOENKA ; THOMAS, 2020). É sabido que a teoria da identidade social discute a eficácia entre líderes e seguidores, se vendo como parte de um grupo comum, (ou seja, compartilhando uma identidade social, um senso de “nós” e “nós”) (STEFFENS et al., 2021), visto que, a teoria da identidade social tem sua origem na psicologia social e busca compreender quais aspectos psicológicos unem um grupo e o que faz com que ele seja reconhecido como tal nos outros. Deste modo, a identidade social influencia de forma direta de consumo entre os membros do grupo de forma hedônica, tentando evitar o stress (FENNIS et al., 2022; LIU et al., 2022).

              Portanto, a percepção da importância do “eu”, diante de alguns fatores salutares frente aos propósitos subjetivos, faz com que o indivíduo resgate suas perdas ou posses relativas ao ter e ao ser (BELK, 1988), os quais o consumidor constrói de forma criativa seu senso de “eu” e sua reconexão da sensibilidade com seu corpo (FIRAT; VENKATESH, 1995; JAIN et al., 2021; SCOTT et al., 2017).

              O desejo de obter bens e consumir o que não representa a necessidade satisfatória, mas sim o prazer em obter os objetos, pode-se chegar ao hedonismo radical constante ao longo do tempo (FENNIS et al., 2022). Neste contexto, pressupõe-se que a via do capitalismo possibilita o senso de identidade, pois as possibilidades imagináveis expandem-se em relação ao ter e ao fazer. Dessa forma, o poder financeiro e o lucro, possibilitam o poder de, seletivamente, adquirir ou rejeitar objetos compráveis, moldando, de maneira mais seletiva, nosso eu extenso, segundo Belk (1988) e Jain et al. (2021), bem como observa-se a importância das emoções que os consumidores sentem e vivenciam durante a experiência de consumo de bens e serviços em condições para sua satisfação pessoal, social e fortalecimento da identidade social (BROUGH et al., 2016; CALVO-PORRAL; OTERO-PRADA, 2021; RANDERS et al., 2021; YAN et al., 2021).

              Nesse sentido, percebe-se que o consumo e o desejo estão atrelados ao lado interpessoal, sendo que o estado interpessoal é análogo entre homens e mulheres, mas para ambos os sexos, percebe-se que o desejo de consumir é intrínseco à experiência positiva emocional mergulhada em fantasias e sonhos, em vez de uma experiência envolvendo julgamentos fundamentados (BELK et al., 2003; ROKKA, 2021). Assim, o corpo demonstra sua identidade, seu “eu”, dimensionando a importância do Self em um espaço subjetivo ao consumo e ao materialismo (BORGERSON; SCHROEDER, 2018), possibilitando as reconstruções e transformações de seus corpos, por meio de trocas psíquicas entre o “eu” e o mundo exterior (BRADSHAW; CHATZIDAKIS, 2016). Enriquecendo com abordagens existenciais e fenomenológicas, Roux e Belk (2019) consideram o corpo como um lugar à autotransformação no consumo contemporâneo. Dessa forma, construção da identidade social pode ser evidenciada via consumo, desde que, de forma consciente intergrupo e em sociedade no geral (EASTMAN; IYER, 2021; GIL-GIMÉNEZ et al., 2021; SCHMITT et al., 2021).

 

2.2 Bem-estar social e qualidade de vida

              O bem-estar é considerado, a partir de uma perspectiva de qualidade de vida (QV) e segundo Gil-Giménez et al. (2021); Ianole-Calin et al., (2021); Lane (2000); Lee e Sirgy (2005); Nussbaum e Sen (1993); Sirgy (2001); Sirgy e Lee (2006), o princípio central da teoria da (QV ) é o aprimoramento do desenvolvimento humano. A qualidade de vida é um objetivo social que os governos procuram atingir nos níveis nacional, comunitário e individual, de acordo os pilares centrais da (TCR), pesquisa transformativa do consumidor (MICK et al., 2012; MULCAHY et al., 2021), que tem como objetivo central buscar o bem-estar em relação à saúde, a felicidade, a prosperidade, a justiça social e outras dimensões em relação a vulnerabilidade do ser humano e seus impactos enquanto consumidor, no sentido micro e macro.

              Pesquisadores de qualidade de vida tradicionalmente capturam o conceito por meio de indicadores subjetivos e objetivos (LEE et al., 2002; MEADOW et al., 1992; SIRGY et al., 1995b, 1995a; SIRGY; LEE, 2006; VANDEN ABEELE, 2021). Os indicadores subjetivos de Qualidade de Vida são tipicamente na forma de medir a felicidade geral, percebida QV, satisfação com a vida ou bem-estar subjetivo (MEADOW et al., 1992; SIRGY, 2001, 2021; SIRGY et al., 1995b, 1995a; SIRGY; LEE, 2006). Os indicadores objetivos, em contraste, tipicamente com o bem-estar econômico, social e ambiental com base na avaliação de especialistas (HAGERTY et al., 2001; SIRGY; LEE, 2006). 

              A premissa básica é que uma faceta do mercado contribui positivamente e negativamente à sensação geral de bem-estar do consumidor, ou seja, satisfação com a vida, percepção da qualidade de vida, bem-estar subjetivo e o bem-estar real dos consumidores, isto é, indicadores objetivos de bem-estar econômico (IANOLE-CALIN et al., 2021), social e ambiental. Exemplo de pesquisa de consumo guiado pelo conceito de qualidade de vida, inclui pesquisas sobre materialismo, consumo compulsivo, equidade de consumo, populações específicas de consumidores, ciclo de vida de consumo, satisfação com a vida do consumidor, impacto da qualidade de vida relacionado a um produto, um sonho, satisfação e metas relacionadas ao bem-estar subjetivo (GROSZ et al., 2021; SIRGY et al., 2007; VOUKELATOU et al., 2021).

              Nessa perspectiva, é imperioso garantir as metas mínimas necessárias ao bem-estar, as quais implicam no acesso adequado e sustentável à renda e recursos para atender às necessidades básicas (BARO; DEUBEL, 2006; GODINHO et al., 2017). Percebe-se  assim que, a relevância mínima ao bem-estar se materializa na certeza de que os indivíduos possam ter acesso ao consumo das necessidades materiais básicas, como comida, abrigo e vestimenta (VOOLA et al., 2018). Assim, é consenso entre os autores que o bem-estar dos consumidores está primeiramente relacionado ao cumprimento das necessidades básicas de subsistência, uma vez cumprida essa etapa, pode-se pensar no bem-estar enquanto consequência do materialismo do consumo. 

              Todavia, a necessidade de manter a segurança dos meios de subsistência, é fundamental para o senso de bem-estar subjetivo (COULTHARD et al., 2011; MARTIN; HILL, 2012). Uma grande quantidade de pesquisas, portanto, examina a segurança dos meios de subsistência no nível doméstico ou comunitário para melhor entender seu impacto no bem-estar individual, familiar e comunitário (LINDENBERG, 2002).

            Diante do estudo proposto, configura-se a fragilidade humana frente a vulnerabilidade de uma comunidade diante das perdas de familiares e amigos, da vivência do luto e do sofrimento. Todo o desconforto proporcionado por impactos ocorridos em várias dimensões direcionadas às ideologias do sistema econômico (ALCADIPANI; MEDEIROS, 2020), infligindo danos em diferentes níveis de intensidade, de forma injusta, como pode-se perceber o caso da Vale, em Brumadinho. Ressalta-se em fatores, como falta de estruturas sociais, desigualdade e exclusão, podem resultar em vulnerabilidade do indivíduo enquanto consumidor (JOHNS; DAVEY, 2019).  

              O estado de vulnerabilidade dos consumidores pode contribuir para o valor de destruição em suas experiências de consumo e rupturas (CHANG ET AL. (2021), interligadas ao bem-estar dos consumidores vulneráveis (ZAINUDDIN et al., 2021) e declives no bem-estar, permitindo bloqueios sociais, sentimentos relacionados a impotência da capacidade em controlar recursos e resultados (TANNER; SU, 2019), crises financeiras, fatores econômicos, culturais, (CHEUNG; MCCOLL-KENNEDY, 2019; SHULTZ; HOLBROOK, 2009), escassez de alimentos e qualidade de vida, falta de água potável, desequilíbrio com a gestão inerente à saúde (DAVEY et al., 2020), desemprego, os quais são apenas alguns dos motivos para se preocupar com o bem-estar dos indivíduos (ROSENBAUM et al., 2017), resultando em tensões continuas (BAKER; MASON, 2012).

              Ações relevantes permeiam as avaliações em níveis de capacidade social (VCA) pré e pós-desastre, e caracterizam-se principalmente com a relevância das autoridades em explorar os vínculos entre a vulnerabilidade social e a capacidade de avaliação de dados, montados antes de um desastre, com necessidades sociais e de avaliação de dados coletados após um desastre. Esses dados precisam ser incorporados em um sistema integrado de informação de gestão de desastres (DMIS), que viabilize segurança (ARORA; CHAKRABORTY, 2021a; BANKOFF et al., 2013; MULCAHY et al., 2021).

 

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

              Esta pesquisa foi realizada, na cidade de Brumadinho, no interior do Estado de Minas Gerais. A escolha do local foi motivada pelo desastre ocorrido no dia 25 de janeiro de 2019, nesta cidade. Brumadinho é conhecida pela beleza sociocultural do Instituto Inhotim e pelas mineradoras que exploram as riquezas minerais do local, como por exemplo, o ferro e os outros minérios valiosos. O desastre foi consequência das atividades da mineradora Vale, pois houve o rompimento de umas de suas barragens, denominada como barragem B1, localizada na Mina Córrego do Feijão, distrito localizado no município de Brumadinho. Foi uma das maiores tragédias socioambiental ocorrida no Brasil, registrada como um massacre de vidas humanas, por negligência corporativa da mineradora Vale.

              A barragem B1 da mina Córrego do Feijão pertence ao Complexo Mineiro de Paraopeba, localizado no município de Brumadinho, estado de Minas Gerais, Brasil. A barragem foi construída em 1976, com aproveitamento próprio de rejeitos. A liquefação do rejeitos e falhas de engenharia estão na origem da tragédia, semelhante ao que aconteceu com a barragem do Fundão, em 2015 (ROBERTSON et al., 2019).

              De acordo com os relatos e fontes de pesquisas, até o momento da realização deste trabalho, o desastre da barragem B1, ocasionou 270 mortes e 4 desaparecidos, que originou-se em um impacto socioambiental, o qual chocou e comoveu a população brasileira e do exterior, devido à ação desumana, criminosa e cruel, provocada pela empresa Vale. Pois, de acordo com os relatos a tragédia poderia ter sido evitada.

              Esta pesquisa se fundamenta em uma abordagem metodológica, de um estudo qualitativo tendo como estratégia de verificação da análise dos dados, os relatos de história de vida, pois abrange os interesses envolvidos na fase exploratória, bem como riqueza de informações absorvidas no envolvimento nas entrevistas com os participantes.

              De acordo com Creswell e Creswell (2021), o pesquisador age como um investigador, para que identifique de forma ética, explicita e reflexivamente seus viesses, os valores, as origens pessoais, tais como gênero, história, cultura e status socioeconômicos, que envolvem todo o contexto da pesquisa. O sujeito reflete sua história no momento de suas reflexões passadas, nessa perspectiva ele expressa o silêncio vulnerável devido os fatos ocorridos, pela dor e o sofrimento. No entanto, os relatos de vida ajudam a compreender e entender como se articulam as histórias individuais e coletivas das pessoas pesquisadas (BARROS; LOPES, 2014). Cada história de vida reflete o seu significado e o simbolismo diante da representatividade coletiva da sociedade a qual pertence e estão inseridas (GOUVÊA et al., 2018).

              A coleta de dados transcorreu-se da seguinte forma:

 

Figura 1: Fases da coleta de dados.

 

 

Fonte: Autores (2022).

 

              Com a utilização de mais técnicas para a realização da pesquisa de dados qualitativos, foi possível enriquecer os detalhes contextuais das falas e o do próprio cenário (CAYLA; ARNOULD, 2013).

              No total realizaram-se nove entrevistas com participantes da cidade de Brumadinho e apenas um de Betim, conforme Tabela 1.


Tabela 1 Dados dos participantes.

Participantes

Idade

Formação

Profissão

Estado civil

Cidade/Estado

A1

74 anos

Ensino Fundamental

Assistente de Pessoal   Aposentado da /Vale (34 anos de atividade)

Casado

Brumadinho/MG

A2

20 anos

Ensino Médio

Secretária do Bispo Dom Vicente

Solteira

Brumadinho/MG

A3

44 anos

Ensino Fundamental

Funcionária da Pousada

Casada

Brumadinho/MG

A4

34 anos

Tecnólogo em Design Gráfico

Administrador da Pousada

Divorciado

Brumadinho/MG

A5

25 anos

Ensino Fundamental

Atendente – Caixa na Padaria

Solteira

Brumadinho/MG

A6

65 anos

Superior-Engenheiro

Gerente na Mineradora Ferros

Casado

Brumadinho/MG

A7

30 anos

Ensino Médio

Taxista

Casado

Brumadinho/MG

 

A8

45 anos

Ensino Fundamental

Taxista

Casado

Brumadinho/MG

A9

50 anos

Ensino Médio

Aplicativo Uber

Casado

Betim/MG

 


Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

              Foram realizadas cinco entrevistas gravadas utilizando o aparelho celular, das quais quatro participantes não autorizaram as gravações. As entrevistas gravadas tiveram a duração de quatro horas cada uma delas, com horário agendado e foram realizadas na cidade de Brumadinho. E as outras quatro entrevistas tiveram o procedimento de anotações dos relatos de vida, pois ficaram inseguros e temerosos com a gravação. Portanto, cada encontro em média transcorreu com tempo de duração de 6 horas e 20 minutos. E todos os participantes receberam e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Por questões éticas, os pesquisadores substituíram os nomes dos participantes por códigos, que estão relacionados de A1 a A9 na tabela e no decorrer do texto.

Para que ocorresse a coleta de dados, houve alguns desafios, por vários motivos apresentados pelas pessoas da comunidade, os quais os pesquisadores tentaram comunicação. Tornou-se necessário e pertinente um contato prévio com os possíveis participantes por telefone. Assim, algumas pessoas se prontificaram a colaborar, outras já não concordavam, por estarem em profundo luto e preferiam manter-se em silêncio devido o momento de dor e sofrimento. E conforme o tempo foi passando, as dificuldades para realizar a pesquisa foi aumentando. Os motivos sempre estavam interligados ao luto, aos problemas mentais e à depressão. Os moradores e parentes das vítimas da tragédia, estavam se sentindo esgotados, com medo e ameaçados pela Vale, devido as várias procuras para entrevistas pela impressa nacional e internacional, referente ao massacre de seus parentes e familiares.

              Mas, quando foi possível, no momento oportuno os pesquisadores, viajaram para Brumadinho/MG, onde ficaram uma semana para realizar o trabalho de campo. Quando chegaram na cidade, as dificuldades ainda persistiram. Várias pessoas que já haviam concordado em participar da pesquisa desistiram por medo, pois, entretanto, estavam se sentindo ameaçadas por funcionários da Vale. Porém, com toda dificuldade, ainda foi possível ouvir vários relatos de vida. Algumas foram gravadas e outras não, pois era nítido o receio que assombrava alguns participantes.

              Após algumas renuncias à participação da pesquisa, já in loco, ocorreram as indicações de contato com outras pessoas, por intermédio do dono da pousada, que concordaram em participar. Dessa forma houve uma programação e agendamento de horários, disponibilidade de tempo, local e o melhor dia para cada participante.

              Portanto, a definição pelos sujeitos que colaboraram com a pesquisa ocorreu por meio de questões de acessibilidade, conveniência e técnicas de “bola de neve”, na qual, segundo Sampieri et al. (2013) identificam-se os participantes-chave para a pesquisa, pergunta-se se conhecem outras pessoas que possam proporcionar dados mais amplos e os contatam para incluí-los no estudo. 

              Além dos agendamentos com os participantes, os pesquisadores sempre saíam pelas ruas da cidade, a procura de evidências. Assim, por duas vezes, em uma padaria, sempre havia algumas pessoas comentando a respeito da tragédia. Mas, não autorizavam que gravássemos suas falas, foram conversas informais. Porém, após ouvi-los, sempre havia a transcrição no diário de anotações dos principais pontos das abordagens e análises das falas.

              No segundo dia, ocorreu a visita ao local da tragédia, que teve início logo pela manhã e se encerrou à tardinha. Foi um dia todo para conhecer a “Mina Córrego do Feijão”. O percurso foi longo e com algumas interrupções para as fotos, pois o local da tragédia estava sendo reconstruído pela Vale. As entradas foram refeitas, pois o caminho anterior que existia antes da tragédia, foi completamente destruído pela lama. Os pesquisadores foram conduzidos no veículo do dono da pousada, os quais estavam hospedados, que se disponibilizou em conduzi-los até o local. Durante o caminho ele foi detalhando como foi o período o qual, residiu na Mina Córrego do Feijão, pois foi ex-funcionário da Vale. Dessa forma, foi possível realizar várias fotos do vilarejo, uma comunidade com poucos habitantes, visto que, muitos moradores abandonaram suas residências e chácaras, devido a tragédia. Era um cenário de guerra, com cenas muito tristes e chocantes. 

              Vários caminhões transitavam entre as ruas, pois a Vale, havia contratado algumas empresas para reconstruírem o vilarejo, pertencente à Mina Córrego do Feijão. Eram caminhões pipa jogando água nas ruas, pois a poeira estava provocando sérios problemas asmáticos e de saúde aos moradores, outros caminhões eram com funcionários pintando os muros e casas, outros transportando funcionários para limpeza das ruas. Pode-se perceber que a Vale estava querendo amenizar a situação de alguma forma.

              A igreja onde foi o centro de concentração das chegadas dos corpos e restos mortais, transportados por meio dos helicópteros do corpo de bombeiros, estava sendo reformada e recebendo uma nova pintura. Alguns moradores da comunidade local aceitaram em falar um pouco sobre à tragédia, mas preferiam o silêncio e o sentimento de tristeza era constante.

              Além da poeira do local, existia ainda um mal cheiro horrível, à medida que os pesquisadores se aproximavam do local que foi invadido pela lama. E com toda razão, todo aquele cenário desconfigurado, explicava o porquê os moradores abandonaram suas moradas e o espaço que lhes pertenciam, pois não teria como permanecerem no local devido aos traumas e a própria situação de devastação do ambiente, além das casas que foram destruídas com as correntezas da lama. Ressalta-se que todos estes espaços físicos relatados foram fotografados.

              Dessa forma, em todas as entrevistas e nos relatos de vida, pode-se detectar, que a emoção estava presente a todo momento, muita tristeza, choros, lembranças e lamentos. Os participantes choravam ao se lembrarem de cada parente ou amigo que perderam suas vidas, de forma tão devassadora e desumana nesta tragédia. Tanto os participantes da pesquisa, quanto a população da cidade estavam traumatizados com a situação lastimável das perdas.

              Os encontros com os participantes das entrevistas, foram pré-agendado com pessoas que aceitaram contribuir com o trabalho. Houve todo um preparo e de ética na conduta nas entrevistas e nas conversas. O cuidado com o tempo de cada um, o nome que foi resguardado, o respeito com a própria situação individualizada e de vulnerabilidade percebida em cada participante, para que não ficassem se sentindo expostos e inseguros.

              A análise dos dados foi realizada após a transcrição dos relatos de vida, dos participantes da pesquisa. E ponderou-se as dimensões com maior impacto nas falas dos relatos. O instrumento da pesquisa, foi testado e validado primeiramente, para que pudesse posteriormente ser aplicado. 

 

4. ANÁLISE E DISCUSSÕES DOS RESULTADOS

              Para contribuir com o estudo das histórias de vida, apoiou-se nas transcrições das entrevistas e categorizando os dados coletados, priorizando as falas dos entrevistados. As dimensões identificadas foram: o sofrimento e as perdas, os meios de subsistências, o bem-estar; o papel do poder público, e as ações da Vale às famílias afetadas.

 

4.1 O sofrimento e as perdas

              A vulnerabilidade do sofrimento causado pela tragédia foi relatada pelos entrevistados, de forma configurada nas expressões faciais das pessoas, diante das perdas, vidas ceifadas de familiares, parentes e amigos. Esta perda foi frequentemente, revelada como algo que prejudicou o sentido do “eu” derivado dos apegos (BELK, 1988);  JAIN et al., 2021) com cada ente querido, devido ao trágico acidente, onde muitas vidas foram interrompidas de forma brutal e inesperada.

Está sendo um desafio acordar todos os dias e relembrar toda a situação vivenciada do acidente, “Não foi um acidente qualquer, foi uma tragédia!” (A1)

Bom, a princípio são, esses trinta e cinco anos lá na empresa [...] uma funcionária, ela entrou muito jovem, hoje ela estaria com 50 anos. O corpo dela não foi encontrado até hoje. (A2)

[...]. Nós fomos padrinhos de casamento dela, há quase três anos. E o marido dela também estava na lá na Vale também, então morreram os dois.... Morreram os dois... E. Esse casamento eles tiveram dois filhos, logo que eles casaram, ela engravidou de dois meninos. [   ]. Que a gente sentiu demais, a gente já visitou a mãe da Juliana, o pai né. E a gente viu as crianças lá, sem pai e sem mãe! Muito triste... [choro] (A1).

E o corpo do rapaz, que era o marido dela foi achado e enterrado né, logo no início e o corpo dela até hoje não foi encontrado e nem o da “Alessídia”, que trabalharam diretamente comigo (A1).

“Nilson” trabalhou comigo dez anos. [...] E o corpo dele foi achado... Partes do corpo né... Nem todo mundo foi achado o corpo inteiro, dificilmente encontram o corpo inteiro. (A1).

Mesmo não sendo meus familiares, o sofrimento não deixou de existir, tinham um valor, mesmo não sendo de minha afinidade, mais Brumadinho é uma cidade muito pequena [...]. E depois vai descobrindo que fulano de tal morreu, mas quem era? E a gente vai pesquisar era ele! Entendeu... e a gente não sabia (A1).

               De acordo com as falas dos entrevistados o sentimento de perda dos entes queridos contrapõe a um roubo, algo que não irá se recuperar mais, são marcar eternas, pois as lembranças inerentes a tragédia, serão revividas diariamente pelos familiares e amigos A vivência do luto e da tristeza despertou a sensibilidade de todos da comunidade. A perda, não voluntária de posses pode trazer um senso de identidade inferiorizado quando as posses são perdidas por roubo ou acidente e há relatos de sentimentos de perda de uma parte do “eu” entre vítimas de desastres naturais (BELK, 1988; STEFFENS et al., 2021). Vale destacar que, é importante distinguir entre a percepção do sofrimento atual de outra pessoa e a percepção de características de estímulo que estão relacionadas às propriedades de uma pessoa saudável e não sofredora, e portanto, entender as demandas sociais envolvidas de perdas e sofrimentos para o desenvolvimento de ações e de políticas públicas diferenciadas (DIJKER, 2001). 

Olha as perdas estão assim, doendo. Mas agora está de forma diferente, porque agora que as pessoas estão vivenciando o luto. Cada um tem uma forma de viver o luto. Sempre no dia 25 tem o “Ato do dia 25”, vem àquela memória, lembrança de todos e está bem difícil! Eu vivencio um pouco né? Nossa, está bem difícil, tudo bem que tem essas indenizações, mas não vai trazer a vida de volta, nada repõe a perda, né dos familiares (A2).

Olha a gente se sente assim, inútil né, porque não temos como fazer nada [...] Não tem muito que ser feito (A3).

              Diante dos relatos das histórias de vida, deixa transparecer a dor, o sofrimento pela perda e forma como ocorreu a tragédia. O luto e os problemas psicológicos que todos estão enfrentando diante do massacre de várias vidas humanas torna-se perturbador para todos. Deste modo, a tristeza é uma emoção considerada intimamente relacionada ao luto, que tem como o resultado final da perda irrecuperável de algo ou alguém que uma pessoa valoriza muito. O luto, assim como a preocupação, não é apenas uma emoção, mas também faz parte de um processo de enfrentamento durante o qual uma pessoa tenta lidar com a perda de um relacionamento importante (OJALA et al., 2021). E são muitas feridas abertas e tristezas nos olhares das famílias, amigos e conhecidos.

Era muito triste, porque as pessoas chegavam arrasadas pelo fato da situação do que estavam vendo e de não ter encontrado naquele dia nada, ou ás vezes encontravam apenas pedaços né... então assim, e as mães pediam, por favor, encontrem nem que seja um dedo do meu filho! Então assim, era tudo muito triste! (A3)

No início foi muito comovente e até hoje, muito triste, no início a cidade estava muito abalada e ainda a gente encontra muitas pessoas muito abaladas! [...] Após o acontecido a cidade ficou muito triste, andava pelas ruas aí, e até hoje, todo lugar que você vai comentam a situação. E o que a Vale está fazendo, é isso (A4).

              Diante de todo sofrimento e luto pelas perdas dos familiares e amigos de Brumadinho, o corpo de bombeiros, seguiu desempenhando seus trabalhos pelas buscas dos restos mortais das vítimas do desastre socioambiental, da mineradora Vale, até o presente momento. A Figura 2, demonstra o cenário de guerra e devastação que ocasionou 270 mortes e 4 desaparecidos.

 

Figura 2: Mina Córrego do Feijão. 

Fonte: Dos autores (2022).

 

              Ente muitas fotos realizadas na comunidade Córrego do Feijão e no local da Mina Córrego do Feijão, local da tragédia, uma delas é essa foto, sendo apresentada acima, onde pode-se constatar um cenário de guerra e devastação total. Vários helicópteros sobrevoando o local, cães farejadores, caminhões, equipamentos pesados trabalhando em buscas dos demais corpos das vítimas da tragédia, que até o momento não haviam sido encontrados. E ao mesmo tempo, realização de limpeza e aproveitamento da lama, com seus resíduos de minérios, que estavam sendo comercializados com a China.

              Próximo a este local, a Mina Córrego do Feijão, como demonstrado, várias residências e chácaras, estavam abandonadas, pois, o odor estava forte demais, devido os dejetos humanos deteriorados junto à lama e os resíduos da própria lama de minérios!! Além do alto volume de poeiras, que estavam ocasionando vários problemas de saúde às pessoas desta comunidade e principalmente às crianças, possibilitando complicações pulmonares, conjuntivite, bronquites, alergias e outras doenças.

 

4.2 O meio de subsistência dos familiares 

              De acordo com os relatos de vidas de alguns entrevistados, a questão do meio de subsistência das famílias afetadas e inclusive da comunidade em geral está relacionada com as práticas sociais da legitimidade para sobrevivência (GODINHO et al., 2017). 

              A legitimidade à sobrevivência está atrelada a vulnerabilidade social e econômica destas famílias que sobreviviam do cultivo de hortas de hortaliças, verduras e legumes, criações de galinhas, de porcos, colheita de ovos, frutas, e alguns animais, como as vacas, as quais produziam o leite. Com a fabricação artesanal de queijos, manteigas, iogurtes, requeijão, doces de leite e outros produtos derivados do leite, a produção visava o próprio consumo das famílias e bem como, o excedente comercializava-os nas feiras da comunidade e da cidade, e ainda no comércio alimentício em geral de Brumadinho. Ocorre que, com a tragédia da Vale, estas famílias perderam suas produções, seus animais, suas moradias e suas formas de trabalho, o que ocasionou sérios problemas financeiros, afetando e comprometendo seus meios de subsistências humana e necessária à vida. Visto como um ato de agressão e crise humanitária à dignidade existencial do Ser Humano.

A questão financeira, de saúde e alimentação, existe um acompanhamento, mas não por todas assistidas. Tem as indenizações, mas a questão de saúde, não por todos não, creio eu que não (A2).

Em relação a dinheiro, financeiramente acho que esse não é o problema, mais é a perda mesmo, o sentimento. A forma como foi, porque a Vale sempre “Preservou a Vida”, sempre foi o lema da empresa: “A vida acima de qualquer coisa”, né?  E não foi isso justamente que aconteceu né? Então financeiramente falando, todo mundo está tranquilo. Mas o slogan da Vale foi ao contrário, e sim, o dinheiro acima de qualquer coisa! (A3.)

              O acesso à alimentação, saúde, educação e moradia, pelo que foi relatado por todos os entrevistados está sendo garantido por audiências públicas e por meio do Ministério Público. A Vale está sendo obrigada a indenizar as famílias e manter um auxílio a toda a população, para que todos tenham o acesso adequado e sustentável à renda e recursos para atender às necessidades básicas (BARO; DEUBEL, 2006; GODINHO et al., 2017). Essa garantia mínima ao bem-estar se materializa na certeza de que os indivíduos possam ter acesso ao consumo das necessidades materiais básicas, como comida, abrigo e vestimenta (VOOLA et al., 2018).

              A participante (A3), ressalta a desvalorização e o desrespeito à vida pela Vale, pois os ativos financeiros e o lucro gerado por ingerências administrativas (ALCADIPANI; MEDEIROS, 2020), estratégias organizacionais e estruturas dominantes como o discurso “conto de lama” (PEREIRA et al., 2020) tornaram-se mais relevantes que a própria vida e a segurança dos funcionários, bem como da comunidade de Brumadinho.

 

4.3 O bem-estar das famílias e dos sobreviventes

              Diante do impacto nacional e internacional do desastre da Vale, percebeu-se a preocupação e a mobilização de vários setores sociais e ONG’S em defesa das famílias que ficaram sem seus lares e que perderam seus entes queridos. Neste contexto, Venugopal et al. (2019) expõem que a legitimidade moral /normativa, das práticas tradicionais de subsistência oportunizam o bem-estar social.

              Entretanto a importância das relações sociais que permeiam a vida cotidiana e de suas atividades inseridas ao bem-estar, mesmo sendo por meio de escambo (GODINHO et al., 2017) e suas comercializações frente ao consumo, representava o contexto da legitimidade de suas identidades. Porém o “eu” ferido e perdido, desvincula suas legitimidades provindas de rupturas das fragmentações do sistema pertubardor. Destaca-se também que, as crenças e as práticas religiosas, por exemplo, estão fortemente relacionadas à cultura e podem ser responsáveis por algumas das variações nos processos de luto (STELZER, 2020), como enfatizado em falas dos entrevistados.

              Para os entrevistados A2, A3 e A4, por determinação judicial, a Vale está assistindo as famílias por meio indenizações e auxílios para toda a comunidade de Brumadinho.

No início a Vale estava pagando psicólogos para os sobreviventes, e funcionários carentes, mas depois parece que não existe mais este atendimento. Olha a Vale pagava os psicólogos, mas nós representantes da igreja, tínhamos medo, dos psicólogos induzirem algo a favor da Vale (A2).

[...] mas apenas a Paola, por milagre sobreviveu. [...] Por ser a única sobrevivente de sua casa. Perdeu toda sua identidade! Ela estava em casa com a família, mas todos morreram. Morava no córrego do feijão e perdeu tudo. A mãe estava fazendo tratamento, pois perdeu parte da família e a casa também. Ficou sem nada (A2).

[...] eu faço parte de um grupo do terço, que se chama terço da Terníssima Imaculada, a gente leva a oração do terço às famílias, a gente conta, reza, a gente faz a pessoa se sentir acolhia e amada e que não está sozinha, e que ela tem um grupo onde ela pode contar né com a mãe, uma Nossa Senhora, Virgem Maria, onde ela pode se acolher né, permanecer firme, como Nossa Senhora permaneceu, então assim, o que a gente pode fazer é isso aí! (A3).

Olha como as pessoas de Brumadinho elas são pessoas assim que conhecem uma as outras, então praticamente são bem unidas, e nesse sentido todos se dando apoio. O Brasil inteiro enviou apoio solidário de alguma forma e comoveu não só o Brasil como o Mundo inteiro. Então tudo foi bem aceito sim (A4).

                  O fator relevante detectado entre às ações comunitárias e solidárias com as famílias vulneráveis, foi o papel da igreja com atendimentos, ajuda solidária e voluntária, orações, celebrações, a oração do terço com os grupos de orações, nas casas das famílias. Estas ações religiosas diante da Fé das pessoas, foi de incomensurável apoio, para acalmar a dor, a solidão, a tristeza, e o luto pelas perdas dos familiares, possibilitando dessa forma o bem-estar frente as recordações (MICK et al., 2012; SIRGY et al., 2007; ZAINUDDIN et al., 2021).

              A relação do bem-estar, Mick et al. (2012), a estas famílias, contrapõe frente às incertezas do futuro para suas vidas obscuras, visto que, as possibilidades de consumo em suas diversas esferas e dimensões, transpõe novas fronteiras, sendo que, no momento, suas identidades, Steffens et al. (2021), que deveriam ser conceptualizadas, foram dispersadas e fragmentadas do mundo social e cultural! Percebe-se, que as perspectivas de mundo do sujeito, tornam-se contraditórias, desconcertantes diante das concepções temporárias e simbólicas inseridas às mudanças profundas não idealizadas e complexas, sendo impostas à vulnerabilidade gerando as rupturas psicológicas e marcantes aos níveis do ecossistema emergente aos familiares (ZAINUDDIN et al., 2021).

 

4.4 O papel do poder público

              É sabido que cabe ao poder público a prestação de serviços, visando garantir e proteger o interesse público e a cidadania. Portanto, a vulnerabilidade está profundamente enraizada em quaisquer soluções fundamentais que envolvem mudanças políticas, reforma no sistema econômico e no desenvolvimento de políticas públicas para proteger, em vez de, explorar as pessoas e a meio ambiente (BANKOFF et al., 2013). Portanto, a implementação proativamente políticas para proteger o bem-estar desse grupo que enfrenta dificuldade e situações traumáticas é fundamental, visto que, os formuladores de políticas podem mapear protocolos para incentivar os profissionais a serem mais conscientes dos seus deveres direitos e as formas legítimas de cobranças e no processo de comunicação entre os atores envolvidos (STEWART; YAP, 2020). Assim, verificou-se a atuação do setor público no caso em pauta, nas seguintes falas: 

Está fazendo um papel de interventor, mais ainda muito lento. Ainda não foi criado nada para a cidade [...]. Está lento demais!  (A4).

O poder está batalhando e brigando a favor da gente né? Então assim eles prenderam, soltaram e tornaram a prender, está investigando né, muita coisa sendo feita. Então até tenho muito pouco estudo, não sei falar muito bem as coisas, mas em minha opinião achava que ao invés de dar o dinheiro, ela colocar tipo assim, uma cooperativa, para as pessoas trabalharem, para ganharem o seu dinheiro, entendeu? Porque a hora que acabar esse dinheiro, vai fazer o quê? As indenizações das famílias são das famílias... agora a população né... Mas com certeza o Ministério Público está todo envolvido e existe todo um trabalho (A3).

              Pode-se verificar que as ações inerentes ao poder público, após várias audiências públicas, estavam tentando negociar as indenizações referente aos funcionários que não sobreviveram ao massacre e juntamente com os danos e prejuízos causados ao município de Brumadinho, de maneira geral. Sobretudo muitas famílias não estavam sendo consultadas referente às indenizações por se encontrarem em situações vulneráveis e precárias. Existe, neste sentido, a necessidade de ações do poder público, municipal e governamental de se pensar na relevância do bem-estar financeiro neste momento tão delicado e calamitoso (BANKOFF et al., 2013; IANOLE-CALIN et al., 2021).

                  A contribuição e a participação dos mercados e de vários atores representantes da sociedade, como o governo e suas instituições, empresas com fins lucrativos, serviço social, grupos sociais, sindicatos, e indivíduos, desempenham um papel relevante e múltiplo neste momento, como representantes de toda comunidade afetada pelo desastre (ARORA; CHAKRABORTY, 2021). Sendo pertinente a mobilização destes atoes sociais, para que possam fortalecer e a apoiar em diversas dimensões, como a oferta de empregos, incentivo à educação em seus vários níveis, investimento na saúde, melhoria na infraestrutura no município, higienização em todos os imóveis, ruas e parques, resgate aos valores culturais e sociais da população.

 

4.5 Ações da Vale para com as famílias afetadas e para com a comunidade 

              Os desastres, como o caso de Brumadinho, são eventos trágicos que frequentemente causam danos físicos catastróficos em casas, prédios, veículos, árvores, linhas de energia e outras estruturas físicas. Ressalta-se que, a tragédia acarreta rupturas físicas e psicológicas nos indivíduos, nas famílias e nas comunidades que são afetadas pelos danos físicos e as consequências psicológicas causadas pela destruição da infraestrutura comunitária, recursos e outros tipos de apoio e assim, necessita de ações dos entes governamentais e das empresas causadoras dos eventos danosos aos cidadãos (BHANDARI et al., 2021; OSOFSKY; OSOFSKY, 2018). 

A Vale, não é a única empresa da cidade. Mas era a maior, a mãe, porque era uma maravilha quem conseguia ser selecionado para trabalhar lá. [...] da forma que a Vale acha melhor, e por meio da cobrança do Poder Público, com muitas cobranças. Mas assistência social não está acontecendo nem para a comunidade e nem para as famílias das vítimas. Ela acha que o dinheiro faz tudo né! (A2).

As famílias foram indenizadas financeiramente, planos de saúde vitalícios, e as crianças também estão recebendo as melhores escolas da região e creio também que estão sendo atendidas por psicólogos por perdas dos pais... (A4).

Quanto a indenização, a princípio foi feito uma indenização para as famílias, me parece de R$100.000,00, para as primeiras despesas, de sepultamento, para a pessoa ser realmente atendida. Isso houve a todo o momento. E as indenizações que a gente fala que indenizar vidas não existe, “vida não tem preço” (A1).

              As indenizações da Vale para as famílias das vítimas, ademais para toda a população como forma de auxílio, por determinação judicial, pauta-se em uma das principais consequências para as sobrevivências das pessoas, como por exemplo, a falta do item primordial que é a água, identificado como um fator crítico, ponto de vista até mesmo sanitário.  Pode-se analisar a Figura 3, o rio Paraopeba, todo contaminado pela lama, com metais pesados e resíduos ocasionados pelo epicentro de impacto causado pelo rejeito que escoou da Barragem I, do Córrego do Feijão.

 

Figura 3: Rio Paraopeba-Brumadinho/MG.

 

Fonte: Autores (2022).

              De acordo com os relatos de vários entrevistados, às margens do rio Paraopeba, existia a aldeia indígena em São Joaquim de Bicas, e foram obrigados a abandonarem o local devido o rompimento da barragem. Estas famílias sobreviviam praticamente da pesca do rio e de suas plantações e após tragédia não conseguiram retornar às suas atividades de origem, devido a contaminação o rio.

Todo morador das margens direita e esquerda estão recebendo um valor, pelo o que a barragem afetou o rio. Falta água. Falta água para muitas cidades aí para baixo né. Usam da água do Paraopeba. Pescadores que existem nas margens do rio né (A1).

              Entretanto, as ações necessárias para avaliação de vulnerabilidade e capacidade social (VCA) pré e pós-desastre, bem como, a implementação de políticas públicas e sociais, integrando as contingências da comunidade local estabelecidas (ARORA;  CHAKRABORTY, 2021B; BANKOFF et al., 2013; BELK, 1988) e que apresentam sua relevância diante do episódio trágico em Brumadinho (GELENCSÉR et al., 2011; LI et al., 2021).

              Percebe-se a negligência da empresa Vale, diante da falta da implementação da segurança estrutural e estratégia de mitigação de risco em ações (BISCARINI et al., 2021) responsáveis pela avaliação do grau de vulnerabilidade, como ocorreu no caso da Barragem B1, no Córrego do Feijão, e de precaver a possibilidade do desastre, o qual ocorreu, e planos de contingenciamentos de acidentes ocasionando impactos ambientais, socioeconômicos à comunidade local de Brumadinho.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

              A abordagem deste artigo decorreu no sentido de elucidar necessidades primordiais de pesquisas de marketing, na área do comportamento do consumidor, demonstrando o consumidor de forma desconfigurada, lesado e torturado por corporações criminosas. Teve a intenção, contudo de provocar reflexões sobre percepções dentro aspecto central na gestão, ao que tange acidentes e desastres por falta de eficiência, profissionalismo e seriedade organizacional, o qual possibilitou que várias vidas fossem sacrificadas em troca do lucro e ganância humana.

              O objetivo foi centrar na questão da vulnerabilidade do consumo e do bem-estar social frente à tragédia de Brumadinho/MG. Sendo assim, buscou-se analisar os relatos de histórias de vida dos moradores de Brumadinho, que participaram da pesquisa. Estes relatos abordaram as falas dos silêncios interrompidos, da dor e do luto referente à memória ao acontecimento brutal do acidente trágico ocorrido na mineradora Vale, na Mina Córrego do Feijão. Nesta tragédia perdeu-se várias vidas, por negligência e ingerência da Vale, descuidos, economia de custos, falta de profissionalismo, desrespeito ao Ser Humano, pois até com o “Vale de lama” Pereira et al. (2020), pode-se obter lucros abusivos, frente ao crime ocorrido.

              Nesse prisma, percebeu-se que a vulnerabilidade das famílias inseridas na comunidade de Brumadinho, que perderam seus filhos, esposas, maridos, parentes e amigos, ficaram sem reação no sentido, até mesmo de não obterem condições de consumo e o bem-estar social e o financeiro, diante das rupturas impostas a todos eles (BARO; DEUBEL, 2006; GODINHO et al., 2017; VOOLA et al., 2018), os quais ainda lutam por suas indenizações e acordos judiciais, porém ressalva-se que as possibilidades de futuros acordos judiciais, ainda não indenizará pelo valor das vidas findadas na lama.

              No que diz respeito às contribuições voltadas ao gerencial e ao social, cabe as ponderações de (BANKOFF et al., 2013) a falta de uma formação profissional adequada e humana para desempenhar o papel em uma organização, voltando os olhares a carência da comunidade. Ações necessárias, para avaliação de vulnerabilidade e capacidade social (VCA) pré e pós-desastre, que são as seguintes: (1) realizar pesquisas comparativas baseadas internacionalmente para descobrir o que a VCA, e processos foram concluídos ou estão sendo realizados em relação a variados perigos; (2) desenvolver uma metodologia acordada com as principais organizações não-governamentais (ONGs) e governos, reunindo-se para desenvolver modelos para avaliações baseadas nas melhores práticas; 3) e frente ao social, as autoridades precisam explorar os vínculos entre vulnerabilidade social e a capacidade de avaliação de dados, montados antes de um desastre, com necessidades sociais e de avaliação de dados coletados após um desastre. Esses dados precisam ser incorporados em um Sistema Integrado de Informação de Gestão de Desastres (DMIS).

              Ressalta-se a relevância deste estudo da área do marketing e contribuições no nível macro, no sentido de despertar maiores pesquisas transformadoras, frente as organizações, (ALCADIPANI; MEDEIROS, 2020) que danificam o ambiente socioeconômico das comunidades locais e carentes, provocando destruições, desastres fatais incitados pelas mineradoras, desabamentos e que negligenciam a legitimidade de práticas de segurança (VENUGOPAL et al., 2019) rupturas, (CHANG et al., 2021) ao bem-estar social e subjuntivo do consumidor, proporcionando o estado de vulnerabilidade social do indivíduo enquanto consumidor.

              Portanto esta pesquisa apresentou contribuições significativas quanto à vulnerabilidade e rupturas no bem-estar social e no bem-estar financeiro, abordando dimensões reais e fortes pertinente a perda da qualidade de vida e da justiça social, por uma melhor perspectiva de vida, devido as perdas humanas e materiais que a comunidade de Brumadinho obteve.

 

 

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