Relações intersetoriais em organizações sociais: cenário da produção científica pela abordagem bibliométrica

Intersectoral relations in social organizations: scenario of scientific production on the bibliometric approach

Geisa Magna Bezerra Torres - E-mail: geisambtorres@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4898-7302, Afiliação Insitucional: Universidade Federal de Campina Grande -Paraíba - Brasil. Titulação: Mestrado em Administração pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) - Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) -Campina Grande - Paraíba – Brasil
Suzanne Érica Nóbrega Correia - E-mail: suzanne.enc@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3613-234X, Afiliação Insatitucional Universidade Federal de Campina Grande Paraíba – Brasil, Titulação: Pós-doutora em Administração pela UFPB. Doutora em Administração pela UFPE, Professora da Unidade Acadêmica de Administração e Contabilidade da UFCG -Campina Grande - Paraíba - Brasil

 

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Resumo 

As formas organizacionais que priorizam a criação de valor social, recorrem cada vez mais a múltiplas atividades, atores e setores para lidar com a complexidade dos problemas socioeconômicos. Por sua vez, parcerias intersetoriais são formadas visando alcançar estrategicamente os objetivos sociais e econômicos. Nesse sentido, para melhor compreender a congruência entre os fenômenos envolvidos, o objetivo deste estudo é mapear a produção científica sobre parcerias intersetoriais em organizações sociais, por meio de uma análise bibliométrica das publicações indexadas na Web of Science no período 1945-2022. Os principais resultados apontam um aumento significativo no interesse científico sobre a temática nos últimos anos, com a contribuição de estudos teóricos e empíricos, predominantemente qualitativos. Os aspectos conceituais e sociais do empreendedorismo social e os aspectos estratégicos da rede de colaboração, bem como o caráter híbrido e inovador das organizações sociais e sua capacidade de gerar transformação social, destacaram-se como abordagens de pesquisa. 

Palavras-chave: Parcerias intersetoriais. Organizações sociais. Bibliometria. 

 

Abstract 

Organizational forms that prioritize the creation of social value increasingly resort to multiple activities, actors and sectors to deal with the complexity of socioeconomic problems. In turn, cross-sector partnerships are formed to strategically achieve social and economic objectives. In this sense, to better understand the congruence between the phenomena involved, the objective of this study is to map the scientific production on intersectoral partnerships in social organizations, through a bibliometric analysis of publications indexed in the Web of Science, in the period 1945-2022. The main results indicate a significant increase in scientific interest on the subject in recent years, with the contribution of theoretical and empirical studies, predominantly qualitative. The conceptual and social aspects of social entrepreneurship and the strategic aspects of the collaboration network, as well as the hybrid and innovative character of social organizations, and their ability to generate social transformation stood out as research approaches.

Keywords: Cross-sector partnerships. Social organizations. Bibliometrics. 

 

1 Introdução

 

Diante dos desafios econômico, social, ambiental e político das últimas décadas, muito se tem abordado sobre a convergência da atuação de múltiplos stakehorlders na busca de soluções viáveis e eficientes para os problemas da sociedade. Nesse contexto, a pressão e a complexidade dos problemas socioeconômicos enfrentados pela sociedade global, em uma escala cada vez maior, transcendem as capacidades das organizações e dos setores em responder de maneira adequada a essas novas demandas de forma individual (EL-CHAARANI, 2021).

Ao mesmo tempo, também há crescente interesse sobre o papel social das novas formas organizacionais que surgem como uma alternativa ao modelo convencional de mercado e que viabilizam o desenvolvimento sustentável. Com características distintas e que não se limitam a busca pela lucratividade, essas organizações visam principalmente à criação de valor social, podendo assumir múltiplas formas (MAIR; MARTÍ, 2006; ZUR, 2021). Assim sendo, uma pluralidade de termos é utilizada para descrever as organizações sociais, as quais visam a solução de problemas socioambientais utilizando mecanismos de mercado, como: empresas sociais, negócios sociais, negócios inclusivos, empreendedorismo social e organizações híbridas (BARKI; RODRIGUES; COMINI, 2020; OKANO et al., 2022).

Apesar das narrativas do empreendedorismo social ser dominado pela atuação do empreendedor individual, os esforços tem sido direcionado a abordá-lo também como uma prática colaborativa (KOVANEN, 2021; MONTGOMERY; DACIN; DACIN, 2012), configurando uma condição viável e indispensável para cumprir com seus objetivos sociais e garantir a sua sustentabilidade financeira. 

As parcerias intersetoriais, por sua vez, ganham espaço ao promover a junção de responsabilidades e capacidades distintas que atores de diferentes setores possuem. Ao envolver colaborações entre governo, empresas e organizações do terceiro setor, as parcerias intersetoriais, também denominadas como alianças sociais ou colaborações intersetoriais, tem o intuito principal de abordar causas e problemas complexos, nos âmbitos social e ambiental (CLARKE; CRANE, 2018; SELSKY; PARKER, 2005). Dessa forma, alinhados aos novos modelos de negócio, as parcerias evidenciam a urgência para uma abordagem sistêmica das práticas de sustentabilidade e responsabilidade social entre os atores que compreendem os três setores da economia. 

Visto que a criação de colaboração tende a acelerar e tornar-se uma das modalidades organizacionais preferidas para enfrentar os dilemas do século XXI (AUSTIN; SEITANIDI, 2012), torna-se necessário desenvolver o campo teórico das parcerias sociais intersetoriais para melhor compreender as interfaces dessa prática colaborativa. Recentemente, em uma revisão sistemática da literatura, Kovanen (2021) abordou a colaboração em empreendedorismo social no contexto europeu, no qual identificou a colaboração da comunidade e do setor público, a colaboração para recursos e empregos e a colaboração em nível de rede como as três principais linhas de pesquisas na área. 

Entretanto, é imprescindível compreender a congruência entre os fenômenos das organizações sociais e as parcerias intersetoriais desenvolvidas no campo científico de forma mais abrangente e conjunta, tendo em vista que, apesar dos avanços e do crescente interesse acadêmico demonstrado nos últimos anos, ainda é uma temática que carece de consolidação teórica e maior clareza quanto aos seus termos, definições e vertentes. Dessa forma, a esquematização dos estudos já realizados e suas contribuições podem produzir insights para condução de novos estudos que fortaleçam o campo de pesquisa e sua compreensão.

 Nesse sentido, este artigo tem por objetivo mapear a produção científica sobre parcerias intersetoriais em organizações sociais, a partir de uma abordagem bibliométrica, considerando a base de dados da Web of Science (WoS). Com isso, pretende-se identificar a evolução histórica das publicações indexadas na plataforma WoS, quem são os principais autores que contribuem para a temática, quais os artigos e periódicos mais influentes, os termos mais frequentes a partir do mapa de co-ocorrência e como a rede de cocitação está configurada, fornecendo um panorama geral acerca dos fenômenos abordados conjuntamente.

Portanto, espera-se contribuir para estudos que tratam da temática sobre organizações sociais e colaboração intersetorial, podendo auxiliar pesquisadores a compreender o atual cenário das produções sobre o tema, a tomar decisões para pesquisas e publicações futuras, como também estimular debates que enriqueçam o campo. Ainda, o estudo pode conduzir o surgimento de novas relações intersetoriais que visem o desenvolvimento de ações estratégicas entre empreendedores, organizações sociais, instituições de fomento e poder público.

O artigo está estruturado da seguinte forma: na próxima seção, é realizada uma discussão teórica sobre as relações de colaboração em organizações sociais. Na terceira seção, detalham-se os aspectos metodológicos empregados na condução da pesquisa. Essa descrição metodológica abre caminho para a quarta seção, na qual os resultados são apresentados e analisados. Por fim, a última seção é dedicada às considerações finais, limitações e recomendações futuras.  

 

2 Referencial Teórico

 

Os novos tipos de organizações que apresentam, desde a sua concepção, como objetivo principal a criação de valor social, são modelos de negócios inovadores que buscam resolver ou ao menos mitigar os problemas socioambientais vivenciados (BARKI; RODRIGUES; COMINI, 2020). No entanto, não há consenso quanto aos modelos e tipologias relacionados às organizações com propósitos sociais, nem a sua nomenclatura, podendo ser adotado uma pluralidade de termos – empreendimentos sociais, negócios sociais, negócios inclusivos e empresas sociais, por exemplo – dependendo do contexto investigado (BARKI; RODRIGUES; COMINI, 2020; DEFOURNY; NYSSENS, 2017). Da mesma forma, é recorrente no campo acadêmico acerca do tema destacar a falta de consenso e a amplitude de definições, além de uma agenda de pesquisa que não está claramente definida (NICHOLLS, 2010; OKANO et al., 2022; ZUR, 2021).

Na literatura, o domínio das narrativas sobre empreendedorismo social está centralizado à figura do empreendedor individual, comumente visto como herói (MAIR; MARTÍ, 2006; MONTGOMERY; DACIN; DACIN, 2012; NICHOLLS, 2010), em contraste ao segundo conjunto que localizam o empreendedorismo social ligado a ambientes comunitários e que priorizam a ação de grupo ou rede (NICHOLLS, 2010). Nicholls (2010), também identificou o modelo organizacional dominante para o empreendimento social, sendo aquele que alinha a lógica e estratégias de mercado à lógica social, refletindo no tipo ideal de negócio social. 

De modo geral, com a missão de criar e sustentar valor social, os empreendedores sociais exercem papel de agentes de mudança (DEES, 1998) em comunidades e sociedades que atuam, ao adotar modelos de negócios que oferecem soluções criativas para questões sociais de alta complexidade (ZAHRA et al., 2009). À vista disso, os empreendedores sociais necessitam tomar decisões estratégicas, criar e buscar oportunidades que garantam o alcance dos objetivos sociais ou ambientais. 

Devido à complexidade inerente aos problemas socioambientais e as pressões econômicas e políticas, a junção de múltiplas forças e a promoção da colaboração entre diversas organizações de diferentes setores da sociedade (BARKI; RODRIGUES; COMINI, 2020) torna-se uma abordagem necessária para viabilizar a solução dos problemas e a sustentação do negócio. Dessa maneira, o empreendedorismo social por uma perspectiva mais ampla, envolve um processo inovador e de combinação de recursos para criar valor social (MAIR; MARTÍ, 2006), que pode ocorrer dentro ou entre diferentes setores (AUSTIN; STEVENSON; WEI–SKILLERN, 2006). 

Neste contexto, as parcerias intersetoriais ganharam destaque na literatura como uma nova vertente dos estudos relacionados às alianças estratégicas (SILVA et al., 2020). Como uma nova forma de arranjo político-econômico, as parcerias intersetoriais buscam conciliar o melhor de dois mundos: a eficiência de mercado e o bem-estar social, a criação de riqueza e a justiça social (DI DOMENICO; TRACEY; HAUGH, 2009). Essa forma de parceria estabelece ações de colaboração entre organizações de dois ou mais setores, cujo foco está em elaborar e implementar projetos e programas em prol da comunidade, solucionar um problema social, atender a população marginalizada ou defender causas de interesse público (CLARKE; CRANE, 2018). 

Compreende-se que, apesar de fortes e diversas razões para colaborar, as parcerias reúnem formas organizacionais contrastantes (DI DOMENICO; TRACEY; HAUGH, 2009). Este cenário colaborativo abarca organizações e indivíduos com diferentes perspectivas, lógicas e motivações, o que tende a acarretar, além dos benefícios das parcerias, em tensões e desafios entre os aliados e para a gestão do negócio. Pode-se dizer que, esses desafios e tensões são provenientes do caráter híbrido das organizações sociais, que combinam lógicas institucionais conflitantes, ou seja, um conjunto de padrões que combinam ações, valores e regras, muitas vezes antagônicos (BATTILANA; DORADO, 2010; DOHERTY; HAUGH; LYON, 2014), além dos diferentes tipos de organização envolvidas nas parceiras. 

As pesquisas que envolvem organizações sociais são caracterizadas por uma abordagem multidisciplinar, uma vez que reúne contribuições de diferentes áreas do conhecimento, como as ciências sociais, políticas, ambientais e econômicas, além da teoria organizacional, gestão, política social e geografia (DOHERTY; HAUGH; LYON, 2014). Essa característica pode ajudar a explicar a diversidade de lentes teóricas que envolvem o campo e a dificuldade de se chegar a um consenso.

Compreender a relação entre as organizações sociais e as formas de colaboração, como as parecerias intersetoriais, torna-se relevante para abordar o empreendedorismo social como uma prática colaborativa (KOVANEN, 2021). Embora estudos já venham buscando compreender as formas de colaboração e como elas atuam no contexto das organizações sociais, é importante também conhecer, caracterizar e avaliar essa base de estudos que já fora produzido dentro dessa temática, o que poderá ajudar que pesquisas futuras sejam melhor direcionadas. Sendo assim, a seção seguinte delineia os procedimentos metodológicos adotados para realização desta pesquisa.

 

3 Procedimentos Metodológicos

 

Com o intuito de mapear a produção científica sobre parcerias intersetoriais em organizações sociais, adotou-se o método de análise bibliométrica, que combina diferentes estruturas, ferramentas e técnicas para análise de publicações (AKHAVAN et al., 2016).  A análise está fundamentada nos princípios da Bibliometria, que compreende a Lei de Bradford (produtividade de periódicos), Lei de Lotka (produtividade científica de autores) e Lei de Zipf (frequência de palavras) (GUEDES; BORSCHIVER, 2012). 

Na fase de planejamento da pesquisa, a base de dados multidisciplinar Web of Science (WOS) foi escolhida e as palavras-chave de busca que compreendem os dois campos de pesquisa foram determinadas. O primeiro grupo de palavras abrange os termos utilizados para definir as organizações sociais (“social organization”, “social enterprise”, “social business”, “social entrepreneurship”, “inclusive business”, “hybrid organization”), enquanto o segundo grupo mapeia o campo das parcerias intersetoriais (“partnership”, “ecosystem”, “triple helix”, “quadruple helix”, “quintuple helix”, “cross-sector”, “aliance”, “collaboration”, “cooperation”). Utilizou-se o operador “*” para capturar as variações dos termos e o operador lógico “AND” para viabilizar todas as 54 combinações possíveis entre os grupos, conforme demonstrado na Tabela 1.

O critério de busca “Tópico”, que contempla a ocorrência dos termos nos títulos, resumos e palavras-chave das publicações, foi determinado para ampliar o escopo da pesquisa. A fim de compreender a evolução da congruência entre as temáticas, não se limitou o período de análise, sendo pesquisados todos os anos disponíveis na base (1945-2022).

 

Tabela 1 - Combinação de palavras-chave na busca inicial

Palavras-chave

social organization

social enterprise

social business

social entrepreneurship

inclusive business

hybrid organization

Total

partnership

88

165

15

101

19

52

440

Ecosystem

171

91

14

120

8

14

418

triple helix

2

0

0

5

0

7

14

quadruple helix

0

1

0

3

0

0

4

quintuple helix

0

1

1

1

0

0

3

cross-sector

5

39

2

26

3

12

87

Aliance

104

20

2

25

2

24

177

collaboration

122

82

18

97

5

38

362

cooperation

364

32

7

41

4

28

476

Total

856

431

59

419

41

175

1981


Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

A etapa de coleta foi realizada em junho de 2022, retornando 1.981 documentos na busca inicial (Tabela 1). A partir disso, para efeitos de refinamento e melhor atender ao objetivo proposto, foram aplicados filtros aos resultados, restringindo a apenas artigos (excluindo-se os “early acess”), pertencentes às categorias “business”, “management”, “economics”, “public administration” e demais áreas afins. Por fim, os artigos repetidos foram excluídos, totalizando 478 artigos no banco de dados final. A Figura 1 resume as etapas da coleta na base de dados aqui descrita. 

 

Figura 1 - Etapas da pesquisa

 

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

            As análises dos dados foram realizadas com o auxílio do software VOSviewer©, versão 1.6.16, para visualização e construção de mapas bibliométricos, permitindo a avalição de clusters (VAN ECK; WALTMAN, 2017). Para tanto, os dados bibliométricos foram gravados como “Registro completo e Referências citadas” e exportados da plataforma WoS no formato de arquivo delimitado por tabulação, sendo posteriormente adicionados ao VOSviewer. Também foi utilizado o Microsoft Excel para viabilizar a consolidação dos dados e construção das tabelas. 

 

4 Análise e Discussão dos Resultados

 

Para atender ao objetivo proposto, o banco de dados final composto por 478 artigos foi mapeado e analisado, utilizando as ferramentas dispostas pelo VOSviewer, no que tange os seguintes aspectos: a evolução das publicações, representada pela quantidade de registros na área; os autores que mais publicam e os mais citados; os artigos e periódicos mais influentes e, por fim, a análise de clusters dos termos de maior ocorrência e das redes de cocitação.  

 

4.1 Quantidade de publicações

 

Apesar de não ter limitado um período de tempo na base de dados, a consulta registrou resultados a partir do ano de 1987, com apenas uma publicação. O artigo intitulado “Public-Private Cooperation and Hybrid Organizations”, de autoria de Emmert e Crow (1987), publicado pelo Journal of Management, buscou examinar a natureza e o papel das organizações híbridas como mecanismos de coordenação na interação entre os setores público e privado. Apesar do pioneirismo do trabalho, a publicação conta com apenas 5 citações entre os documentos analisados. 

            Após o registro da primeira publicação acerca da temática, observa-se uma lacuna de 5 anos até o segundo artigo em 1992, mantendo um ritmo entre uma e duas publicações até o ano de 2005. A partir de então, as publicações apresentaram tendência de crescimento, mas com oscilações significativas até a data da consulta em 2022. A Figura 2 demonstra a evolução no quantitativo de publicações ao longo dos 36 anos de pesquisas indexadas na WoS e que compõem a amostra. 

 

Figura 2 - Evolução das publicações

 

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

 

Verifica-se que o pico das publicações ocorreu no ano de 2020 com 64 publicações, ou seja, 13% do total de registros. O trabalho mais influente deste período, com 27 citações na base de dados analisada, é o artigo publicado pelo Journal of Business Ethics, intitulado “Inclusive Business at the Base of the Pyramid: The Role of Embeddedness for Enabling Social Innovations” de Lashitew, Bals e van Tulder (2020), o qual trata de um estudo qualitativo que buscou compreender como inovações sociais surgem e se sustentam em organizações empresariais, revelando um forte papel das redes e estruturas locais para iniciar e implementar as iniciativas. 

É pertinente notar que, o período entre os anos 2012 a 2022 configurou uma importante expansão dos estudos quando analisado o número total de publicações, somando 430 artigos, o que corresponde a aproximadamente 90% da amostra, e mais especificamente 368 publicações nos últimos 7 anos (período 2016-2021), ou seja, cerca de 77% dos artigos selecionados. Sendo assim, é possível sugerir que o tema continua em evidência, demonstrando uma crescente nos estudos que abrangem a temática, uma vez que até o mês de junho de 2022 já consta um número expressivo de publicações - 35 artigos.

 

4.2 Autores mais produtivos e citados

 

Em decorrência da relevância e da tendência de estudos na área, torna-se necessário identificar e analisar os principais autores que se debruçam sobre a temática, de acordo com o seu nível de produtividade e de citação. Foram identificados 1.234 autores ao todo, aos quais apenas 77 possuem duas ou mais publicações no escopo da pesquisa, o que representa apenas 6,24% do número total de autores. Essa pulverização em relação aos autores pode ser um indicativo que a área está em fase de consolidação, o que é possível observar na evolução quantitativa do número de publicações recentes. 

Tomando por base os 10 autores mais produtivos da área no período 1987-2022, com exceção de Loosemore, M. que se destaca com 4 artigos publicados, os demais autores apresentaram 3 publicações, distinguindo apenas quanto ao número de citações, conforme Tabela 2. Ressalta-se que dentre os autores, Carsrud, A.L e Meyskens, M. apresentam o maior índice de citação por publicação (79,33).

 

Tabela 2 - Autores mais produtivos

Autores

Nº de Publicações

Nº de Citações

Afiliação

País

Loosemore, M.

4

41

University of Technology Sydney

Austrália

Carsrud, A.L.

3

238

Abo Akademi University

Finlândia

Meyskens, M.

3

238

University of San Diego

Estados Unidos

Tracey, P.

3

234

University of Cambridge

Reino Unido

Hockerts, k

3

86

Copenhagen Business School

Dinamarca

Reuer, J.J.

3

83

University of Colorado 

Estados Unidos

Roundy, P.T.

3

68

University of Tennessee 

Estados Unidos

Roy, M.J. 

3

61

Glasgow Caledonian Univ

Reino Unido

Huybrechts, B.

3

59

IESEG School of Management

França

Hazenberg, R.

3

44

University of Northampton

Reino Unido


Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

O autor Loosemore, M.  destacou-se por possuir o maior número de artigos publicados na área, o autor também é o único que não está vinculado a instituições concentradas nos Estados Unidos ou na Europa. Seus trabalhos na área se concentram em investigar empresas sociais na indústria da construção, em especial às práticas de compras sociais por meio da colaboração intersetorial. Dos 4 trabalhos produzidos, o de maior impacto foi publicado em parceria com Barraket, J., com o título “Co-creating social value through cross-sector collaboration between social enterprises and the construction industry” em 2018. No entanto, o referido autor não compõe o ranking dos 10 autores mais citados, como demostrado na Tabela 3.

 

Tabela 3 - Autores mais citados

Autores

Nº de Citações

Afiliação

País

Wilson, J.

660

University of Maine

Estados unidos

Lebel, L.

660

Chiang Mai University

Tailândia

Redman, C.L.

578

Arizona State University

Estados Unidos

Jay, J.

486

Massachusetts Institute of Technology (MIT)

Estados Unidos

Menard, C.

341

University of Paris

França

Lerner, M.

290

Academic College of Tel Aviv Yaffo

Israel

Sharir, M.

290

Ruppin Academic Center

Israel

Carsrud, A.L.

238

Abo Akademi University

Finlândia

Meyskens, M.

238

University of San Diego

Estados Unidos

Tracey, P

234

University of Cambridge

Reino Unido


Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

Em comparação, apenas Carsrud, A.L., Meyskens, M. e Tracey, P.  destacam-se também na lista dos 10 autores mais citados na área (Tabela 3). De maneira similar ao ranking da produtividade, a maioria dos autores mais citados estão concentrados em instituições nos Estados Unidos (4) e na Europa (3), mas apresentam uma dispersão em relação às universidades que estão afiliados. Não obstante, Carsrud, A.L. e Meyskens, M. são de universidades diferentes e sediadas em países distintos, mas possuem 3 artigos publicados em parceria dentre as publicações analisadas, sendo um deles de alto impacto. Lerner, M. e Sharir, M. são de universidades distintas, mas sediadas no mesmo país, possuem um artigo publicado em parceria dentre as publicações analisadas, sendo este avaliado também como de alto impacto (Tabela 4).

 

4.3 Artigos mais influentes

 

Em relação às publicações mais citadas na área das organizações sociais e parcerias intersetoriais, foi considerando os scores de citação dos artigos identificado por meio do software CitNetExplorer. Optou-se por selecionar os estudos de alto impacto para a rede de publicação, avaliado pelo H-Index ou Índice H, que mede a produtividade e o impacto do trabalho em uma pesquisa com base nas publicações mais citadas (HIRSCH, 2005). Desta forma, foram selecionados 13 estudos que apresentaram o valor mínimo de 13 em seu score de citação, ou seja, um H-Index = 13, de acordo com a Tabela 4.

 

Tabela 4 - Artigos mais citados

Autores (Ano)

Título

Cit. score

Montgomery, A.W.; Dacin, P.A.; Dacin, M.T. (2012)

Collective social entrepreneurship: collaboratively shaping social good

72

Jay, J. (2013)

Navigating paradox as a mechanism of change and innovation in hybrid organizations

55

Di Domenico, M.; Tracey, P.; Haugh, H. (2009)

The dialectic of social exchange: theorizing corporate-social enterprise collaboration

50

Sharir, M.; Lerner, M. (2006)

Gauging the success of social ventures initiated by individual social entrepreneurs

46

Sakarya, S.; Bodur, M.; Yildirim-Oktem, O.; Selekler-Goksen, N. (2012)

Social alliances: business and social enterprise collaboration for social transformation

40

Phillips, W.; Lee, H.; Ghobadian, A.; O'regan, N.; James, P. (2015)

Social Innovation and Social Entrepreneurship: A Systematic Review

26

Nicholls, A.; Huybrechts, B. (2016)

Sustaining inter-organizational relationships across institutional logics and power asymmetries: the case of fair trade

20

Calton, J.M.; Werhane, P.H.; Hartman, L.P.; Bevan, D. (2013)

Building Partnerships to Create Social and Economic Value at the Base of the Global Development Pyramid

18

Tracey, P.; Phillips, N.; Haugh, H. (2005)

Beyond philanthropy: community enterprise as a basis for corporate citizenship

17

Hockerts, K. (2015)

How Hybrid Organizations Turn Antagonistic Assets into Complementarities

16

Menard, C. (2004)

The economics of hybrid organizations

15

Meyskens, M.; Carsrud, A.L.; Cardozo, R.N. (2010)

The symbiosis of entities in the social engagement netword: the role of social ventures

15

Gillett, A.; Loader, K.; Doherty, B.; Scott, J. M. (2016)

A multi-organizational cross-sectoral collaboration: empirical evidence from an 'empty homes' project

13


Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

Analisando a Tabela 4, nota-se que cerca de 62% dos estudos (8 artigos) foram publicados a partir do ano 2012, período que marca a expansão dos estudos acerca da temática. Além disso, os pesquisadores Carsrud, A.L., Meyskens, M. e Tracey, P. são os únicos autores com obras de maiores impactos que também estão no ranking dos mais produtivos e mais citados concomitantemente. É possível ainda verificar que a lista é composta por estudos empíricos e teóricos, predominantemente qualitativos, e que em sua maioria apontam em seus resultados novos conceitos e proposições, frameworks, modelos e tipologias, contribuindo efetivamente para o avanço do campo teórico investigado.                                                                                                                           

O artigo “Collective social entrepreneurship: collaboratively shaping social good”, com maior score de citação (72), de autoria de Montgomery, Dacin e Dacin (2012), amplia o debate sobre o empreendedorismo social sugerindo estudá-lo por uma lente coletiva envolvendo ações colaborativas. Nesse sentido, é proposto o conceito do empreendedorismo social coletivo, entendido como a colaboração entre atores semelhantes e diversos que tem por objetivo resolver problemas sociais aplicando princípios de negócios. Utilizando casos exemplares, os autores examinaram o empreendedorismo social coletivo por meio de ações colaborativas, o que incluiu movimentos, alianças e mercados voltados para o bem social. Dentre os principais resultados, identificou-se três atividades estratégicas interconectadas que mobilizam o empreendedorismo social colaborativo: enquadramento, convocação e multivocidade (MONTGOMERY; DACIN; DACIN, 2012).

O segundo artigo mais citado “Navigating paradox as a mechanism of change and innovation in hybrid organizations”, cujo autor realizou um estudo etnográfico em uma organização híbrida público-privada, contribui para o campo teórico ao desenvolver um modelo de processo de mudança organizacional que se dá de forma interativa e contínua, ilustrando o paradoxo presente em organizações híbridas (JAY, 2013). 

O terceiro artigo da lista “The dialectic of social exchange: theorizing corporate-social enterprise collaboration”, assim como os artigos “Building Partnerships to Create Social and Economic Value at the Base of the Global Development Pyramid” (8º artigo) e “The symbiosis of entities in the social engagement netword: the role of social ventures” (12º artigo), desenvolvem frameworks para analisar ações colaborativas em organizações sociais e seus parceiros. O primeiro propõe um framework conceitual em que a parceria corporação-empresa social pode evoluir em três estágios: tese (troca de ativos e recursos), antítese (tensões e conflitos) e síntese (reconciliações e criação de novos arranjos interorganizacionais) (DI DOMENICO; TRACEY; HAUGH, 2009). No segundo artigo são apresentadas três estruturas conceituais emergentes para investigar as relações de colaboração na BoP (base da pirâmide): redes descentralizadas, redes de ação global e abordagem de rostos e lugares (CALTON et al., 2013). Enquanto o terceiro concebe um framework da rede de engajamento social, enfatizando os empreendimentos sociais em colaboração com outras organizações, sendo as transações baseadas em relacionamentos e não na racionalidade econômica, na qual os principais atores procuram criar e desenvolver valor econômico e social (MEYSKENS; CARSRUD; CARDOZO, 2010). 

Em um estudo de caso comparativo, o quarto artigo da lista “Gauging the success of social ventures initiated by individual social entrepreneurs”, analisa 33 empreendimentos sociais Israelenses em busca da identificação dos fatores-chave que influenciam o sucesso dos empreendedores sociais, sendo identificadas 8 variáveis: rede social, dedicação total, base de capital na fase inicial, aceitação da ideia pelo discurso público, composição da equipe, colaboração entre os setores, capacidade de resistir ao teste de mercado e experiência gerencial anterior (SHARIR; LERNER, 2006). 

De maneira semelhante, o quinto artigo listado “Social alliances: business and social enterprise collaboration for social transformation” também apresenta uma abordagem qualitativo-exploratória, visando analisar os objetivos, contribuições e o impacto de seis alianças sociais entre empresas sociais e privadas em um contexto de subsistência (SAKARYA et al., 2012). 

Uma revisão de literatura conduzida por Phillips et al. (2015), a única dentre os artigos mais influentes, propõe analisar sistematicamente a pesquisa em inovação social e empreendedorismo social. O estudo “Social Innovation and Social Entrepreneurship: A Systematic Review” apontou o interesse crescente na área na última década, o domínio dos países de língua inglesa nas pesquisas e a predominância de estudos exploratórios e qualitativos. Os autores sinalizaram os temas principais que tem recebido atenção dos pesquisadores da área: i) o papel do empreendedor, ii) redes e sistemas, iii) parcerias intersetoriais e iv) o papel das instituições. Concluem sugerindo que empresas sociais e empreendedores sociais existem dentro de um ‘sistema de inovação social’ (PHILLIPS et al., 2015).

No estudo desenvolvido por Nicholls e Huybrechts (2016), “Sustaining inter-organizational relationships across institutional logics and power asymmetries: the case od fair trade”, os autores desafiam a teoria institucional e adicionam um novo construto relacionado à resolução de conflitos em lógicas institucionais. São sugeridos, portanto,  fatores centrais (proposições) que permitem o surgimento e persistência das relações interoganizacionais entre corporações e organizações de comércio justo: a presença de 'lógicas híbridas' pré-existentes; discursos que abrangem fronteiras; tolerância conjunta de conflito; e co-criação de regras comuns; os quais são habilitados mediante utilização e apresentação de sistemas de certificação (NICHOLLS; HUYBRECHTS, 2016).

Os artigos “Beyond philanthropy: community enterprise as a basis for corporate citizenship” (9º artigo) e “The economics of hybrid organizations” (11º artigo) tratam de estudos relacionados aos aspectos de governança em organizações sociais. No primeiro artigo, os autores argumentam que as abordagens de governança da responsabilidade social corporativa nem sempre são adequadas e propõem uma estrutura alternativa baseada na ‘Abordagem de Parceria’, sendo esta eficaz para colaborações com determinadas características (TRACEY; PHILLIPS; HAUGH, 2005). Em relação ao segundo artigo, Ménard (2004) propõe uma tipologia de governança híbrida: confiança, influência ou rede relacional, liderança e governança formal.

Já o décimo artigo, “How Hybrid Organizations Turn Antagonistic Assets into Complementarities”, adota o estudo de caso comparativo, selecionando três categorias de organizações híbridas (Work Integration Social Enterprises - WISEs, Base da Pirâmide - BoP e Comércio Justo), no qual o autor identificou estratégias híbridas para lidar com ativos antagônicos e transformá-los em vantagens (HOCKERTS, 2015).

Por fim, o décimo terceiro estudo intitulado “A multi-organizational cross-sectoral collaboration: empirical evidence from an 'empty homes' Project”, Gillett, Loader, Doherty e Scott (2016), baseado em evidências empíricas de um projeto colaborativo, os autores identificaram uma série de desafios e tensões, juntamente com os mecanismos usados para gerenciá-los, que surgem em colaborações intersetoriais envolvendo organizações com múltiplas lógicas.

De modo geral, os pesquisadores utilizaram teorias existentes e consolidadas para embasar seus estudos, como o caso das teorias institucional, das trocas sociais, da dependência de recursos, dos custos de transação, da ecologia populacional e da visão baseada em recursos. Quanto as escolhas metodológicas, além da predominância dos estudos qualitativos, observou-se também a utilização de estudos exploratórios multicaso, etnografia, entrevistas, observação participante e análise documental. 

Sendo assim, nota-se que os estudos estão direcionados a dois grandes grupos. O primeiro é fortemente vinculado à perspectiva do empreendedorismo social, enquanto o segundo grupo de estudos direcionam suas pesquisas à compreensão do hibridismo organizacional. Por fim, os pesquisadores priorizaram investigar as relações de parcerias entre empresas sociais e corporações, acionando a motivação relacionada à responsabilidade social corporativa. 

 

4.4 Periódicos mais influentes

 

Quanto aos periódicos que foram utilizados para publicar os 478 estudos na área temática pesquisada, foram mapeados 238 periódicos científicos. A Tabela 5 apresenta os 10 periódicos mais influentes de acordo com o número de citações, sendo o Ecology and Society o mais citado na área, com 1580 citações e o segundo em produtividade, com 11 publicações. Dentre os mais influentes, o Journal of Business Ethics também se destaca por apresentar a maior quantidade de artigos - 14 publicações.

 

Tabela 5 - Periódicos mais influentes

Periódicos

Nº de Citações

Nº de Publicações

País

Fator de impacto

Ecology and Society

1580

11

Canadá

4.653

California Management Review

827

7

Estados Unidos

11.678

Journal of Business Ethics

680

14

Países Baixos

6.331

Academy of Management Journal

508

2

Estados Unidos

10.979

Journal of Institutional and Theoretical

Economics

341

1

Alemanha

0.254

Journal of World Business

302

2

Estados Unidos

8.635

Research Policy

282

3

Países Baixos

9.473

Public Administration and Development

219

2

Reino Unido

1.854

Group & Organization Management

206

1

Estados Unidos

4.290

Journal of Management Studies

188

4

Reino Unido

9.720

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

 

Apenas 4 periódicos, Ecology and Society, California Management Review, Journal of Business Ethics e Academy of Management Journal, apresentaram um número superior a 500 citações, o que indica que estes concentram os artigos de maior impacto que abordam a temática. Ao analisar o Fator de Impacto (JCR – Journal Citacion Reports) dos periódicos, avaliados em 2021, o California Management Review, com sete publicações e 827 citações, tem o maior fator de impacto da amostra (11.678), enquanto o Ecology and Society, com maior número de citação, tem um JCR abaixo de 5 (4.653). Ainda, vale ressaltar que 40% dos periódicos mais influentes são norte-americanos, o que pode estar associado ao fato dos autores mais produtivos e citados serem afiliados as universidades americanas, exercendo fortemente influência para a área temática.

 

4.5 Co-ocorrência de termos mais frequentes

 

A fim de identificar as palavras com maior ocorrência dos 478 artigos que compõem a base de dados, foi realizado um mapeamento da rede de co-ocorrência de termos mais frequentes nos títulos e resumos com o auxílio do VOSviewer. Dos 11.763 termos mais recorrentes, apenas 275 atenderam ao critério de aparecer no mínimo 15 vezes. No entanto, o VOSviewer considera para efeitos de análise, o conjunto de 60% dos termos encontrados como mais relevantes, totalizando 165 palavras. 

O resultado final apontou 115 termos para amostra final após exclusão de palavras não representativas e com baixo score de relevância, o qual “social entrepreneurship” (empreendedorismo social) se destaca como a palavra de maior ocorrência (243 vezes), seguida das palavras “community” (199 vezes) e “partnership” (197 vezes), conforme ilustrado na Figura 3. Os termos mais frequentes foram categorizados em 4 fluxos principais (clusters) de acordo com os interesses de pesquisa da rede de autores.

 

Figura 3 - Mapa de co-ocorrência de termos mais frequentes

 

Fonte: VOSviewer (2022).

 

O primeiro cluster (vermelho) – Aspecto colaborativo – relaciona-se à necessidade de associação e combinação de capacidades, lógicas e vantagens de diferentes organizações e setores para lidar com a complexidade, demanda e tensões dos negócios sociais. Também evidencia as trocas e ligações entre os diversos atores sociais. Entre os termos presentes, se destacam: partnership (parceria), value (valor), sector (setor) e network (rede).

O segundo cluster (azul) – Aspecto social – destaca o papel do empreendedorismo social e a atuação do empreendedor social para promover a mudança social e a satisfação das necessidades sociais na base da pirâmide e em contexto de subsistência. Social entrepreneurship (empreendedorismo social), social entrepreneur (empreendedor social), ecosystem (ecossistema), bop (base da pirâmide) e social mission (missão social) são termos relevantes nesse cenário.

O terceiro cluster (verde) – Caráter transformador – destaca-se com os termos community (comunidade), entrepreneur (empreendedor), experience (experiência), survival (sobrevivência) e combination (combinação), representando a capacidade de gerar transformação social ao criar soluções coletivas para os problemas compartilhados pela comunidade na prática, por meio da ação empreendedora e da mobilização social.

O quarto cluster (amarelo) – Caráter inovador – os termos impact (impacto), entrepreneurship (empreendedorismo), technology (tecnologia), university (universidade), investor (investidor) e growth (crescimento) remetem ao caráter inovador e sistêmico inerente à criação de valor em organizações sociais e suas redes de relações interorganizacionais. 

Tendo em vista o escopo de pesquisa dos clusters identificados, o campo científico que compreende as relações intersetoriais em organizações sociais mostra-se, de maneira geral, produtivo no que tange estudos relacionados ao caráter coletivo e colaborativo entre os atores sociais, aos aspectos sociais inerente ao objetivo dessas organizações, a transformação social gerada por meio da criação de valor e o caráter inovador presente no ambiente ao qual o negócio social está inserido. 

 

4.6 Rede de Co-citação

 

Para finalizar o mapeamento, analisou-se a rede de relacionamento de co-citação, considerando como critério mínimo pelo menos 20 citações por autor. Dessa forma, dos 16.894 autores mapeados, 108 atenderam ao critério, sendo estes agrupados em 3 clusters principais (Figura 4).

 

Figura 4 - Rede de cocitação

 

Fonte: VOSviewer (2022).

 

O primeiro cluster (vermelho) – Aspectos conceituais – é composto por 57 autores, com destaque para Mair, J. (149), Dees, J.G. (125), Nicholls, A. (107), Defourny, J. (93) e Zahra, S. A. (84) como os mais citados. O foco de investigação da maioria desses autores é nos aspectos conceituais do empreendedorismo social, como definições, tipologias, características e abordagens, além dos esforços em diferenciá-los de outros tipos de empreendedorismo. Nesse sentido, diferentes perspectivas e definições cercam o campo do empreendedorismo social (DEES, 1998; MAIR; MARTÍ, 2006), contudo é inerente caracterizá-lo como uma atividade inovadora e de criação de valor social  (AUSTIN; STEVENSON; WEI–SKILLERN, 2006). Assim, o empreendedorismo social engloba atividades e processos para descobrir, definir e explorar oportunidades que gerem riqueza social (ZAHRA et al., 2009).

No segundo cluster (verde), - Estratégia e colaboração - constituído por 29 pesquisadores, os mais relevantes são Eisenhardt, K.M. (134), Prahalad C. K. (71), Porter, M.E. (69), Ostrom, E. (61), Austin, J.E. (60) e Williamson, O.E. (55). São discutidas do ponto de vista estratégico, as práticas de responsabilidade social corporativa, as formas colaborativas entre organizações e setores, e aspectos de valor compartilhado. Desse modo, é posto a capacidade das parcerias e colaborações entre organizações, com e sem fins lucrativos, como um poderoso meio de atingir a missão social e econômica e uma via para promover a responsabilidade social corporativa (AUSTIN, 2000; PORTER; KRAMER, 2011).

O terceiro cluster (azul) – Lógicas institucionais distintas – tem em sua composição 22 autores, sendo os principais Battilana, J. (146), Pache, A. C. (67), Tracey, P. (55), Thornton, P.H. (42) e Greenwood, R. (35). Os estudos são direcionados a compreender o hibridismo organizacional, tendo em vista sua complexidade, tensões e lógicas conflitantes. Constituído como uma nova forma organizacional, o hibridismo organizacional combina lógicas institucionais distintas (BATTILANA; DORADO, 2010) de forma sistêmica, extraindo seletivamente elementos de cada lógica (PACHE; SANTOS, 2013). Logo, exige dos empreendedores lidar com uma forma particularmente complexa de empreendedorismo com características que pode ter pouco em comum e com potencial de gerar conflitos (TRACEY; PHILLIPS; JARVIS, 2011). 

Deste modo, após a identificação e análise da rede de co-citação, é possível configurá-la em três vertentes – aspectos conceituais do empreendedorismo social; aspectos estratégicos dos negócios sociais e aspectos híbridos das organizações – que revelam os principais direcionamentos de pesquisas realizadas pelos cientistas que compõem a rede de co-citação.

 

5 Considerações finais

 

Com o objetivo de mapear a produção científica sobre organizações sociais e parcerias intersetoriais, a partir de publicações indexadas na Web of Science no período 1945-2022, foi possível identificar o panorama geral das publicações que cercam o tema. 

Diante dos resultados obtidos, pode-se destacar uma literatura ainda não consolidada, mas com uma disposição crescente da produção científica sobre a temática das relações intersetoriais em organizações sociais, com destaque para o período de crescimento acentuado nos estudos a partir do ano de 2016, momento que marca a ascensão dos negócios sociais, o que revela estar intrinsecamente relacionados. 

Apesar do grande quantitativo de autores presentes nas publicações da amostra analisada, um número restrito de estudiosos se sobressai na área investigada, como os pesquisadores Carsrud, A.L., Meyskens, M. e Tracey, P., sendo os únicos autores presentes no ranking dos mais produtivos, mais citados e com obras de maior impacto, concomitantemente. Da mesma forma, há uma concentração dos principais autores, mais produtivos e mais citados, afiliados a instituições norte-americanas e europeias. Enquanto que, na rede de co-citação, os autores mais influentes que possuem citações entre si, são Mair, J. (149), Battilana, J. (146) e Eisenhardt, K.M. (134). 

Apesar da pulverização de autores, duas vertentes teóricas destacaram-se: o empreendedorismo social e o hibridismo organizacional, evidenciando um direcionamento das pesquisas em contextos voltados a busca de criação de valor a partir da combinação de lógicas distintas. Além disso, são predominantes os estudos de práticas colaborativas entre empresas sociais e empresas privadas, configurando um contexto híbrido propício para examinar a formação de alianças para criação de valor social alinhado aos mecanismos de mercado. Configurando a lista de artigos mais influentes, constata-se a contribuição de estudos teóricos e empíricos, e de abordagem qualitativa, com destaque para aqueles que apontam em seus resultados novos conceitos e proposições, frameworks, modelos e tipologias, contribuindo efetivamente para o avanço do campo teórico investigado.  

As análises dos clusters evidenciaram os múltiplos aspectos que envolvem a organização social e as formas de colaboração. Com 4 clusters principais de conteúdos abordados nos artigos e 3 clusters que constitui a rede de cocitação, destaca-se a busca pelos aspectos sociais e conceituais do empreendedorismo social, o aspecto estratégico na rede de relacionamento e de colaboração, o caráter social e econômico das formas organizacionais híbridas, a capacidade de gerar transformação social através dos resultados e objetivos atingidos e o caráter inovador do ambiente sistêmico ao qual as organizações sociais estão inseridas. 

Considerando as limitações do estudo, evidencia-se a utilização de apenas uma base para coleta dos dados, o que pode não refletir a totalidade da literatura sobre o tema, e a não realização da leitura de todos os artigos da amostra na íntegra, o que demandou uma análise pela perspectiva do pesquisador. Sugere-se que trabalhos futuros sejam realizados utilizando outras plataformas de dados para replicar e aumentar o escopo da investigação, como também a possibilidade de realizar revisões sistemáticas a partir de recortes específicos para aprofundar as discussões. 

Ainda assim, a análise permitiu identificar que as parcerias sociais, apesar de sua relevância no contexto das organizações sociais, são tratadas em segundo plano em grande parte dos estudos avaliados, apresentando-se como um resultado do processo empreendedor. Desta forma, o campo científico carece de estudos que abordem as parcerias intersetoriais como elemento principal, juntamente do processo de criação de valor.  Espera-se, portanto, que estudos futuros contribuam para a literatura investigando como as relações intersetoriais podem contribuir efetivamente ao longo do processo de geração de valor social, inclusive demonstrando como se dá tal processo a partir do envolvimento de diversos parceiros em uma perspectiva sistêmica. 

Por fim, é esperado que este estudo possa contribuir na prática para o desenvolvimento de ações e estratégias junto a empreendedores e organizações sociais, a partir do panorama aqui destacado, assim como possa guiar e intensificar a rede de relacionamento entre empresas, academia, governo e demais instituições que fomentem a integração entre os propósitos econômicos e socioambientais oriundos dos negócios sociais. 

 

 

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