Editorial

Regionalidade e desenvolvimento: o papel da gestão

Regionality and Development: The Role of Management


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Marco Antonio Pinheiro da Silveira1, Orcid https://orcid.org/0000-0001-6658-5548; Rodrigo Fernandes Malaquias2, Orcid https://orcid.org/0000-0002-7126-1051; Márcio Lopes Pimenta3, https://orcid.org/0000-0003-3899-3274; Maria do Carmo Romeiro4, Orcid https://orcid.org/0000-0002-3158-7903 

1. Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Programa de Pós Graduação em Administração, São Caetano do Sul, São Paulo, Brasil. E-mail: marco.pinheiro@online.uscs.edu.br 

2. Universidade Federal de Uberlândia, Faculdade de Gestão e Negócios, Programa de Pós-Graduação em Administração, Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. E-mail: rodrigofmalaquias@ufu.br

3. Universidade Federal de Uberlândia, Faculdade de Gestão e Negócios, Programa de Pós-Graduação em Administração, Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. E-mail: pimenta@ufu.br.  

4. Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Programa de Pós Graduação em Administração, São Caetano do Sul, São Paulo, Brasil. . E-mail: maria.romeiro@online.uscs.edu.br 

* Autor correspondente: marco.pinheiro@online.uscs.edu.br; R. Conceição, 321 – Bairro Santo Antonio, São Caetano do Sul – S, Brasil, CEP: 09530-060 P

1 Regionalidade: o conceito e as dimensões

 

O termo regionalidade tem sido utilizado em diversas circunstâncias, tanto no ambiente acadêmico quanto em textos jornalísticos e estudos técnicos da área pública. Mas é importante destacarmos inicialmente que não há uma definição para o termo e, de fato, a palavra não é encontrada em dicionários de língua portuguesa.

Apesar disso, o conceito de regionalidade está sedimentado e ganhou relevância no meio acadêmico. Em vez de buscar uma definição, pode ser mais produtivo considerá-lo uma reunião, ou um “guarda-chuva’’, para um conjunto de abordagens teóricas que colocam o tema região, não apenas sob ponto de vista geográfico, como elemento central. Há pesquisas focadas em dimensões sociais e geográficas que abordam conceitos de natureza teórica, tais como: 1) conceito de composição, que define a noção de sincronia entre elementos estruturais, infraestruturais, históricos e culturais de um local (Stewart, 2013); 2) conceito de desenvolvimento regional, que pode estar relacionado às características do ambiente social, cultural, geográfico, econômico e político de uma determinada região (Gil, Oliva, Novaes & Silva, 2013). Dessa forma, percebe-se que o próprio conceito de regionalidade, em seus fundamentos, mostra dependência e influência da ação e da presença de diversos elementos para definir as características de determinada região, bem como seus respectivos efeitos sobre o ambiente.

Outras investigações abordam conceitos mais específicos no âmbito da regionalidade, tais como: compartilhamento de conhecimento (Morgan, 1997); estética (Stewart, 2013); identidade (Weck, 2020); localidade (Tuominen, Jussila & Saska, 2020); e valores (Mccann, 2007). Há, ainda, trabalhos que se dedicam a aspectos mais operacionais, que visam a identificar características regionais e respectivos impactos gerados nos resultados de organizações e ou regiões especificas. Esses estudos contemplam diversos temas em contextos regionais, tais como: cadeias de suprimento curtas (Solarz, Raftowicz, Kachniarz & Dradrach., 2023); clusters (Bell, Tracey & Heide, 2009); inovação (Thapa, Iakovleva, Foss, 2019); competitividade (Ciffolilli & Muscio, 2018); sustentabilidade (Ruffer & Coenen, 2012). 

Gil, Oliva e Silva (2007) apresentaram ensaio que teve propósito de estimular a reflexão acerca do desenvolvimento da regionalidade como função emergente da administração e como disciplina científica com lugar definido nos cursos de graduação e pós-graduação em Administração. Estes autores chamam atenção para confusão existente entre o conceito de regionalidade e de regionalismo, visto que ambos dependem dos movimentos regionais. Para eles, no entanto, regionalidade vincula-se com a reorganização do estado local com novas formas de parceria que emergem para guiar e promover o desenvolvimento de recursos locais. Estaria, assim, relacionada à efetiva cooperação entre as instâncias de governo regional e os vários segmentos da sociedade civil com o propósito de promover o desenvolvimento regional.

Uma busca no Web of Science (WOS) com o termo regionality, em 21/04/2024, mostrou 734 resultados. Quando se observam as áreas (categorias do WOS) com maior quantidade de publicações, aparecem, em primeiro lugar, Tecnologia de Ciência de Alimentos, Meteorologia/Ciências Atmosféricas e Ciências Ambientais, o que mostra que o termo é aplicado em diferentes contextos. A chamada de trabalhos para esta edição especial, assim como o próprio periódico Gestão & Regionalidade, tem como área-mãe a Administração (de empresas e pública), porém trabalhos de diversas áreas correlatas podem ser aderentes ao tema, como Economia, Planejamento Urbano e Regional, Geografia e outras. Na busca realizada no WOS, a área de Economia ocupou a 11ª posição, em termos de número de trabalhos publicados, com 17 trabalhos. Da área de Administração, havia 5 trabalhos.

A iniciativa de elaboração desta edição especial da revista Gestão e Regionalidade é resultado de uma parceria entre dois Programas de Pós-Graduação stricto sensu da área de Administração, o da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e o da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Uscs). O primeiro incorporou a área de regionalidade mais recentemente, no ano de 2019, enquanto o segundo foi criado em 1998, obtendo reconhecimento da Capes em 2003.

A regionalidade foi inserida como um dos elementos da área de concentração do PPGAdm/UFU em 2019, como forma de buscar um conteúdo inovador e de impacto para a produção intelectual no campo da Administração (PPGAdm/UFU, 2024). O tema explorado nos estudos desenvolvidos no referido programa procura ir além de uma unidade geográfica, buscando abranger outros elementos (PPGAdm/UFU, 2024). Para tanto, exige-se, no PPGAdm/UFU, que as pesquisas desenvolvidas desde então tratem de regionalidade; ademais, exige-se que as dissertações e teses mencionem, em seus títulos, a regionalidade, e o resumo informe, ainda que de maneira breve, os impactos e contribuições que o respectivo trabalho proporciona para as regiões nas quais a UFU exerce maior influência, a saber: mesorregiões do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, sul de Goiás e leste do Mato Grosso do Sul (PPGAdm/UFU, 2024).

Se, por um lado, a formação do PPGAdm/UFU está relacionada à extensa região do centro do Brasil, a gênese do PPGA USCS tem relação com o ABC paulista, que faz parte da região metropolitana de São Paulo. A região do ABC passou por transformações significativas em sua estrutura econômica, nas décadas de 1980 e 1990, em decorrência das transformações produtivas — especialmente a questão da produção enxuta —, experimentadas por diversas regiões industrializadas do mundo. O processo iniciado no ABC, principalmente pelo setor automobilístico, foi disseminado para outros setores industriais da região rapidamente. Essa questão, inserida num cenário de avanço da globalização, contribuiu para uma ampla reestruturação da gestão das organizações, seja na gestão da produção, na gestão de pessoas, na gestão de recursos materiais e financeiros, seja na forma de relacionamento com outras organizações; seja ainda na gestão das políticas e programas públicos e, mais amplamente, na discussão do desenvolvimento local/regional com os diferentes atores presentes no território, em atuações a partir de redes organizacionais.

A equipe que elaborou o projeto do Programa de Mestrado em Administração do Imes (atualmente Uscs) em 1998 buscou explicitar, de um lado, a cultura empreendedora da região e, de outro, a consciência e a identidade regionais. Ambas permearam a história da região, conhecida por dar início a transformações sociais importantes ocorridas no país.

A união de pesquisadores dos PPGAs da UFU e Uscs para realização desta edição é muito bem-vinda porque promove intercâmbio entre dois grupos dedicados a estudar a regionalidade com olhar da área de Administração. Assim, esse intercâmbio pode gerar um transbordamento para a comunidade.

O foco da chamada é “o papel da gestão”, que pode ser entendido como “O que podemos fazer para promover a regionalidade no âmbito das empresas?”. Os artigos aprovados envolvem diferentes abordagens metodológicas, incluindo estudos qualitativos, estudos quantitativos, estudos de caso, pesquisas com dados primários e análises com dados secundários, o que evidencia também a diversidade de abordagens acerca do tema. 

 

2 Regionalidade e Geografia econômica

 

A abordagem da Geografia econômica oferece contribuições importantes para pesquisadores, gestores públicos, órgãos de fomento e empresários que tenham interesse na gestão, considerando o elemento regionalidade. Os geógrafos econômicos têm identificado que a análise econômica tradicional não abrange toda a compreensão dos processos de desenvolvimento da localidade; assim, suas abordagens têm se direcionado para as fundações institucionais, culturais e sociais da economia local/regional (Boschma & Martin, 2010). A geografia econômica trata de descrever, analisar e explicar o desenvolvimento enfatizando a importância do contexto geográfico, da particularidade e da diferenciação, bem como de aspectos históricos (Gong & Hassink, 2020). No campo da Geografia econômica, existem diferentes panoramas de contextos investigados a depender dos interesses dos pesquisadores, embora se enfatize a perspectiva central de uma abordagem analítica contextual geográfica (Asheim, 2020; Gong & Hassink, 2020).

Por exemplo, Audretsch, Falck, Feldman e Heblich (2012) propõem modelo que pode ser utilizado para analisar o contexto do empreendedorismo local. Os autores testaram a inter-relação entre características regionais e atividades empresariais em setenta e quatro regiões da Alemanha Ocidental. Ademais, analisaram a propensão específica do grupo de funcionários locais para iniciar um negócio no âmbito dos modelos de contagem de dados. Segundo os pesquisadores, os resultados empíricos sugeriram que existem regimes regionais empreendedores distintos. De um lado, aqueles em que os trabalhadores locais têm uma elevada propensão para iniciar um negócio, e de outro, regimes regionais rotinizados, com uma menor propensão para gerar atividade empreendedora local. Esse tipo de análise pode ser útil quando se trata da gestão que visa desenvolvimento de regiões.

De acordo com Binz, Truffer e Coenen (2016), os estudos da área de Geografia econômica discutem a questão de “onde e como emergem novos caminhos industriais”.   A ideia de criação de caminhos (path creation) é central nesda abordagem. Os autores apresentam um novo quadro analítico que especifica a formação de “recursos genéricos” em indústrias embrionárias. Sugerem que os processos de criação de caminhos não são apenas condicionados pelas capacidades regionais pré-existentes, mas também pela forma como os intervenientes empresariais e não empresariais mobilizam e ancoram recursos essenciais para a formação da indústria. Por fim, defendem que a “ancoragem” de recursos extra-regionais é parte integrante das explicações sobre a criação inicial de caminhos. 

A crescente vertente da pesquisa em Geografia econômica evolutiva (GEE) aborda questões de criação de caminhos regionais. MacKinnon, Dawley, Pike e Cumbers (2019) afirmam que a criação de caminhos se baseia na ideia de que os legados e condições específicos do local desempenham papel crítico no apoio ao surgimento de novas atividades econômicas. Além de apresentar uma avaliação crítica do estado da arte na pesquisa sobre criação de caminhos, o estudo identifica as principais dimensões da criação de caminhos e suas inter-relações constitutivas.

Hassink, Isaksen e Trippl (2019) informam que a criação de caminhos é um conceito-chave na Geografia econômica. Embora asseverem que os estudiosos da GEE foram pioneiros no desenvolvimento de pesquisas sobre o tópico, pode ser muito proveitoso para pesquisadores da área de Administração incorporarem tal abordagem, voltada para o estudo de como surgem novas atividades econômicas nas regiões, a que eles se referem como “desenvolvimento de uma nova trajetória industrial regional”. 

A contribuição trazida por MacKinnon et al. (2019), conforme afirmam os próprios pesquisadores, é sustentada por uma abordagem de Economia política geográfica (EPG) que fornece a base ontológica para a integração das cinco dimensões principais da criação de caminhos. A EPG informa que intervenientes experientes, que operam em ambientes institucionais multiescalares, criam caminhos mediante o acoplamento estratégico de ativos regionais e extrarregionais a mecanismos de criação de caminhos e mercados associados. Logo, a gestão que busca o desenvolvimento explorando o aspecto regionalidade deve ser exercida por tais intervenientes empresariais e não empresariais.

Ainda tratando da questão de path creation, merece destaque a proposta de Uyarra e Flanagan (2022), que tratam da agência em nível de sistema para criação de novos caminhos. Os autores realizaram estudo de caso de um conjunto novo e contínuo de empreendedorismo institucional e atividades de construção de sistemas na região da Galiza, na Espanha. Com base no estudo, identificaram os papéis e desafios para a criação de caminhos liderados pelo Estado .

Rodríguez-Pose e Di-Cataldo (2014), por sua vez, tratam da questão da qualidade das instituições e o quanto elas afetam o potencial inovador de um território. Apesar de afirmarem que a relação entre a qualidade das instituições e do governo e a inovação continua a ser um enigma, os estudiosos apresentam resultados de pesquisa realizada em regiões da União Europeia (UE) que mostram evidências de uma ligação causal entre a qualidade dos governos locais e a capacidade dos territórios para gerar inovação. Destacam, em particular, que a baixa qualidade do governo se torna uma barreira fundamental à capacidade inovadora da periferia da UE.

Outra abordagem relacionada ao tema gestão para o desenvolvimento da regionalidade é aquela que trata de política de inovação de base local para a diversificação industrial. Grillitsch e Asheim (2018) abordam tais políticas de inovação industrial, baseadas em especialização inteligente e que visam a impulsionar o crescimento econômico por meio da diversificação para atividades econômicas mais complexas e de maior valor. Os autores utilizam um quadro conceitual e analítico para apoiar a concepção e implementação de tais políticas, considerando pré-condições específicas do local, particularmente, a diferenciação do sistema regional de inovação e empreendedorismo e o grau de diversificação industrial atual.

Segundo Balland e Boschma (2021), as capacidades regionais são tidas como um pilar da estratégia de especialização inteligente. Para esses pesquisadores, o que importa não é o fato de se estar ligado a outras regiões em si, mas sim a regiões que proporcionam capacidades complementares.

Outro aspecto a ser considerado quando se trata de esforços para uma boa gestão da regionalidade é a ideia de criação de motores da diversificação industrial. Nesse sentido, Xiao, Boschma e Andersson (2018) estudaram a forma como tais motores dependem das estruturas econômicas e industriais. Do mesmo modo, analisaram o papel do relacionamento da indústria na explicação das variações na diversificação da indústria.

Em contrapartida, Trippl, Grillitsch e Isaksen (2018) exploraram outro tema relevante, quando se considera o tema gestão para desenvolvimento da regionalidade, investigando as condições e de que forma o conhecimento não local pode levar ao desenvolvimento de novos caminhos em diferentes sistemas regionais de inovação. Finalmente, é oportuno mencionar um trabalho que analisou a maneira como os atores podem mudar as instituições. Essa abordagem, de Battilana, Leca e Boxenbaum (2009), é vista como um esforço rumo a uma teoria do empreendedorismo institucional. Trata-se de tema fortemente relacionado à questão da gestão voltada para desenvolvimento e regionalidade.

 

3 Os artigos da edição especial em um contexto regional

 

Tabela 1

Artigos selecionados para esta edição

Artigos selecionados para esta edição

Título

Autores

Instituição

Os desafios da gestão no artesanato e suas contribuições para o desenvolvimento local e regional

Santos, Santos e Santos

Universidade Federal de Pernambuco

Drivers e barreiras para a implementação da Agenda 2030 em uma universidade estadual paranaense (Brasil)

Christ

Universidade Estadual do Oeste do Paraná

A inovação e cultura local na produção de café especial em Short Food Supply Chain e seus impactos sobre a sustentabilidade ambiental

Campos

Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

A importância do território na caracterização dos negócios de impacto socioambiental em periferias

Barros (¹), Formick (²) e Czarnotta (²)

(¹) Universidade Cidade de São Paulo

(²) Universidade de São Paulo

Open Strategizing no Sistema Regional de Inovação frente à incerteza ambiental: estudo de caso na Região Sul do Brasil

Leite

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),

UBERHUB — ecossistema de inovação, empreendedorismo e startups de Uberlândia-MG: configuração, resultados e desafios futuros

Silva e Bueno

Universidade Federal de Uberlândia

O impacto das MPE optantes pelo simples nacional sobre a arrecadação de ISS e emprego dos municípios da Região Metropolitana do estado do Rio De Janeiro

Cordeiro (¹), Montibeler (¹) , Cruz (²), Gomes e Oliveira (²)

(¹) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

(²) UNIG - Universidade Iguaçu

A implantação do Programa de Aquisição de Alimentos numa instituição de ensino superior: potencialidades, fragilidades e desafios da gestão pública na Baixada Fluminense/RJ

Pinto (¹), Borges (²), Nascimento (²) e Santos (¹)

(¹) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: Seropedica

(²) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

As estratégias sustentáveis nas indicações geográficas: análise de conteúdo da conexão das denominações de origem com os ODS

Vitorino e Avrichir

Escola Superior de Propaganda e Marketing

Compromisso empresarial com processos de gestão de projetos: estudo de caso de PMEs em Pasto (Colômbia)

Gómez e Delgado

Universidad Mariana: Pasto, CO

 

As delimitações geográficas de um país, incluindo as internas, implicam diferenciações territoriais que abrangem condições naturais, climáticas, econômicas e sociais (Uskelenova & Nikiforova, 2024). As características de uma região, que emergem de seus recursos e dão suporte para atividades econômicas, influenciam o tipo de atividade a ser desenvolvida pelas empresas locais, criando oportunidades e desafios relacionados ao contexto regional (Neffke, Hartog, Boschma & Henning, 2018; Xiao, Boschma & Andersson, 2018). Portnto, se determinada localidade não dispõe de determinado recurso necessário para uma atividade específica, será impossível desenvolver a referida atividade naquela região (Xiao, Boschma & Andersson, 2018).

As indicações geográficas encaixam-se nesse contexto, pois consideram identidades de produtos desenvolvidos localmente, mas que, em função de suas características, apresentam diferencial competitivo e se destacam no mercado como um todo. Em um dos artigos desta edição especial, Vitorino e Avrichir (2024) analisaram se Cadernos de Especificações Técnicas (CET), que têm informações sobre as indicações geográficas, trazem frases que podem ser lidas como referências a Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030. Tanto o Prof. Dr. Ilan Avrichir quanto o Doutorando Sidney Lincoln Vitorino têm vínculo com a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Embora o assunto seja relevante, os autores evidenciaram lacunas que podem ser preenchidas, de forma que os CET contenham elementos alinhados com os ODS. Outro artigo da edição especial abordou os ODS. Por meio de um estudo de caso em uma universidade no sul do Brasil, Chris (2024), caracterizou ações gerenciais e características regionais que favorecem a implementação da Agenda 2030 no ambiente universitário. O trabalho também mapeia as principais barreiras à implementação da Agenda.

Cordeiro, Montibeler, Cruz, Gomes e Oliveira (2024) consideraram, em sua análise, o nível municipal na Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de compreender variáveis relacionadas à arrecadação de impostos e nível de emprego. Os autores estão vinculados a diferentes instituições de ensino, sendo elas: Universidade Iguaçu, no Rio de Janeiro, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Universidade Federal do Espírito Santo. A pesquisa destaca a relevância de micro e pequenas empresas para a economia em nível nacional e regional, ressaltando também políticas públicas voltadas para tais empresas.

Níveis de desigualdade social presentes no cenário brasileiro também marcam a dimensão regional. Por exemplo, o estudo de Pinto, Borges, Nascimento e Santos (2024) ressalta essa característica como elemento presente na região analisada, a Baixada Fluminense. Os autores analisaram a implantação de um Programa de Aquisição de Alimentos numa instituição de ensino superior, ressaltando oportunidades, ameaças, forças e fraquezas relacionadas com o projeto. Quanto à instituição, os quatro autores estão vinculados à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Os recursos de uma região podem ser acessados por um conjunto amplo de empresas, mas estarão disponíveis especificamente naquela região (Neffke, Hartog, Boschma, & Henning, 2018). Tais recursos irão garantir a uma região um diferencial em comparação com outras localidades, e esse diferencial irá atrair empresas, contribuir para o seu desenvolvimento e, consequentemente, para o desenvolvimento local. Ao mesmo tempo, economias locais — seja de determinadas cidades, seja da região em si — podem tornar-se dependentes de um conjunto de indústrias, empresas ou atividades específicas (Xiao, Boschma, & Andersson, 2018).

O trabalho dos colombianos Gómez e Delgado trata da questão da escassez de recursos enfrentada por empreendedores de pequenas e médias empresas (PMEs) da cidade de Pasto, Colômbia, trazendo propostas para a gestão organizacional do grupo em foco.

Silva e Bueno (2024) analisaram um ecossistema de inovação e empreendedorismo na Cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Os pesquisadores estão vinculados à Universidade Federal de Uberlândia. A integração necessária entre os participantes de um ecossistema (como instituições de ensino, iniciativa privada e poder público) foram examinadas e destacadas no estudo. Esse tipo de análise também revela elementos regionais que podem favorecer a implantação de ecossistemas como esses, a exemplo das universidades que buscam integração com o mercado. Outro artigo da edição especial contempla a influência de aspectos regionais sobre a operacionalização dos sistemas de inovação. Nele, Leite (2024) expõe uma visão estratégica sobre a incerteza ambiental e seu impacto na geração de inovação por meio de drivers oriundos de características do ambiente regional.  

Os recursos a serem acessados em uma região também envolvem aspectos intangíveis, por exemplo, intensidade em pesquisa e desenvolvimento e capital humano (Shin, Kim, Lee, & Kogler, 2023). O tipo de recurso pode também caracterizar um “regime de crescimento” regional, em que a inovação pode ser favorecida em regiões com maior intensidade de fatores baseados no conhecimento, ao passo que atividades de produção podem ser favorecidas em regiões que proporcionem parques produtivos de menor custo e profissionais com qualificação mínima (Audretsch et al. 2012). O trabalho de Santos, Santos e Santos (2024), incluído nesta edição, apresenta estudo de experiência de gestão ordinária realizada por grupo de artesãos, que pode ser vista como exemplo de um recurso que traz benefícios para o arranjo e para a região.

A existência de determinado nível de conhecimento em uma região pode ainda ser ampliada por meio do conhecimento disponível em regiões externas, o que irá impulsionar tanto o conhecimento em nível regional quanto global (Trippl, Grillitsch & Isaksen, 2018). 

Diante desse cenário, por muitas vezes, estudos sobre regionalidade consideram delimitações geográficas com o objetivo de proporcionar um avanço no conhecimento. Como exemplo, tem-se que o nível de acesso e uso de serviços financeiros pode ser heterogêneo entre as regiões de um mesmo país, o que pode ser desconsiderado ao se construírem indicadores em nível nacional que não levam em consideração desigualdades inter-regionais (Elouaourti & Ezzahid, 2024). Nessa mesma linha de raciocínio, construtos comportamentais, como o estresse psicológico, podem diferenciar-se entre pessoas de acordo com a área de residência (Baxter, Tooth & Mishra 2001). Vale lembrar que a avaliação de diferenças regionais e seus efeitos em construtos psicológicos são temas em crescimento (Stuetzer, 2023).

O trabalho incluído nesta edição especial, de Barros, Formick e Czarnotta (2024), volta-se para o contexto dos territórios populares periféricos, focando a questão da heterogeneidade entre regiões, bem como dos negócios de impacto socioambiental.

A comunidade local, os bairros e as cidades favorecem o surgimento de parcerias nas relações econômicas e culturais (Claval, 2005), o que reforça o caráter regional. Ademais, idiossincrasias relacionadas ao consumo podem requerer uma atenção especial ao caráter regional (Claval, 2005), o que facilitaria o atendimento das necessidades de consumidores específicos. As pesquisas sobre o regional vão além. Dessa maneira, o “onde” (Whetten, 1989), quando adequadamente abordado, pode também contribuir para o desenvolvimento de uma teoria e, consequentemente, o avanço do conhecimento. Ainda sobre vantagens econômicas relacionadas ao gerenciamento de recursos regionais, o artigo de Campos (2024) utiliza o conceito de cadeias de suprimentos curtas para explicar como a cultura local pode proporcionar inovação e sustentabilidade no âmbito da produção de cafés especiais. 

 

4 Considerações finais e agenda de pesquisa

 

Argumentamos, assim, que a regionalidade representa um conceito multifacetado. O desenvolvimento regional demanda uma visão multidimensional (Alves, 2015), considerando diversos aspectos da atividade econômica. Diferentes abordagens teóricas também têm sido aplicadas levando-se em conta especificamente o contexto regional. Neffke, Hartog, Boschma e Henning (2018) argumentam que a visão baseada em recursos — Resource Based View — (Barney, 1991) pode ser adaptada para aplicação a capacidades regionais, desde que tais recursos tenham valor, sejam raros, de difícil imitação e não substituíveis. Tem-se também os estudos considerando aspectos sobre a Geografia econômica (Alves, 2015; Trippl, Grillitsch & Isaksen, 2018), conforme apontado no tópico anterior.

Após percorrer estudos anteriores que abordam a regionalidade, bem como após conhecer suas bases teóricas, observa-se que o tema pode ser tratado com base em diferentes abordagens, contextos e procedimentos metodológicos. Desta forma, como agenda de pesquisa para ampliar o conhecimento na interação entre regionalidade e gestão, novos estudos podem considerar a abordagem da Geografia econômica, Geografia econômica evolutiva, Economia política geográfica, estratégia de especialização inteligente, empreendedorismo institucional, bem como a tradicional visão baseada em recursos. Diversos contextos são também aderentes à pesquisa sobre regionalidade, considerando:

 

Agradecimentos:

 

Agradecemos aos autores que submeteram artigos, aos revisores, aos professores que, de alguma forma, se envolveram com a presente edição especial, aos doutorandos da Uscs pelo apoio concedido no fluxo do processo editorial, ao PPGA/Uscs e ao PPGAdm/UFU.

 

Referências

 

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Audretsch, D. B., Falck, O., Feldman, M. P., & Heblich, S. (2012). Local Entrepreneurship in Context. Regional Studies, 46(3), 379–389. https://doi.org/10.1080/00343404.2010.490209   

Balland, P.-A., & Boschma, R. (2021). Complementary interregional linkages and Smart Specialisation: An empirical study on European regions. Regional Studies, 55(6), 1059–1070. https://doi.org/10.1080/00343404.2020.1861240 

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