Received: 04/09/2024

Accepted: 30/09/2024

 

Telhados verdes e sustentabilidade urbana: um estudo sobre o projeto do shopping eldorado em São Paulo, SP

Green Roofs and Urban Sustainability: A Study on the Eldorado Shopping Project in São Paulo, Brazil

 

 

Mariana Bortolato Martelli1i*, ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9327-1386; Diego de Melo Conti²ii, ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1889-0462; Luiza Vigne Bennedetti³iii, ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8840-6766 ; Maurício Lamano Ferreira⁴, ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7647-3635;

 

1.  Fundação Instituto de Administração, São Paulo, SP, Brasil. E-mail : marianabivmartelli@gmail.com

2.  Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Programa de Pós-graduação em Sustentabilidade, Escola de Economia e Negócios, Campinas, SP, Brasil. E-mail: diegoconti.prof@gmail.com

3.  Universidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental, Instituto de Energia e Ambiente, São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: lvbennedetti@usp.br

4.  Universidade de São Paulo, Departamento de Ciências Básicas e Ambientais, Escola de Engenharia de Lorena, Lorena, São Paulo, Brasil. E-mail: lamano@usp.br

 

Resumo

A urbanização das cidades tem se caracterizado por um processo acelerado e tem gerado uma série de desafios para tornar as cidades mais sustentáveis, eficientes e habitáveis para seus cidadãos. Em resposta, o conceito de sustentabilidade vem sendo adotado para mitigar ações negativas e adaptar as estruturas urbanas. Este estudo investiga os benefícios dos telhados verdes como solução sustentável, focando no projeto do Shopping Eldorado em São Paulo, SP. A metodologia incluiu revisão bibliográfica e pesquisa documental, com uma visita guiada ao shopping para análise do telhado verde e coleta de dados sobre manutenção e benefícios. Os resultados destacam os telhados verdes como ferramentas eficientes para escoamento de água pluvial, redução de consumo de energia, mitigação de ilhas de calor e melhor manejo de resíduos. A conclusão ressalta a viabilidade de telhados verdes em centros comerciais, apontando para ganhos econômicos, sociais e ambientais significativos.

Palavras-chave: sustentabilidade urbana; cidade sustentável; soluções baseadas na natureza; telhado verde.

 

Abstract

Urbanization in cities has been characterized by an accelerated process, leading to a series of challenges in making cities more sustainable, efficient, and livable for their citizens. In response, the concept of sustainability has been adopted to mitigate negative actions and adapt urban structures. This study investigates the benefits of green roofs as a sustainable solution, focusing on the design of Shopping Eldorado in São Paulo, SP. The methodology included a literature review and documentary research, with a guided visit to the shopping center for analysis of the green roof and data collection on maintenance and benefits. The results highlight green roofs as efficient tools for stormwater runoff management, energy consumption reduction, heat island mitigation, and improved waste management. The conclusion emphasizes the feasibility of green roofs in commercial centers, pointing to significant economic, social and environmental benefits.

Keywords: urban sustainability; sustainable city; nature-based solutions; green roof.

 

Citation: Martelli, M. B., Conti, D. M., Bennedetti, L. V., & Ferreira, M. L. (2025). Telhados Verdes e Sustentabilidade Urbana: Um Estudo sobre o Projeto do Shopping Eldorado em São Paulo, SP. Gestão & Regionalidade, v. 41 e20259540. https//doi.org/10.13037/gr.vol41.e20259450


 

1   Introdução

 

Nos últimos séculos, a ação humana sobre a Terra alterou drasticamente os processos e os fluxos naturais do planeta. As atividades negativas levaram à destruição de florestas e vegetação para dar lugar às cidades, à poluição de rios e oceanos, à alteração nos níveis de nitrogênio pelo uso intensivo da terra e ao aumento de poluição e acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, fazendo com que estudiosos nomeassem a nova época geológica de antropoceno (Barthel, Isendahl, Vis, Drescher, Evans & Timmeren, 2019). Ao trazer a lente de observação para as décadas mais recentes, presencia-se um fator agravante das ações negativas da sociedade e com grande impacto nas mudanças climáticas: a urbanização. Esse fenômeno não tem previsão de diminuir, pelo contrário, estima-se que ele continuará a crescer por conta das perspectivas de crescimento urbano, uma vez que se avalia que 68% da população global viverá em cidades em 2050, o que revela um aumento de 2,2 bilhões de pessoas nesse tipo de estrutura (UN, 2015).

Em resposta às situações adversas causadas pelos centros urbanos, o conceito de sustentabilidade é empregado a fim de mitigar ações negativas e adaptar as estruturas vigentes para melhor servir a sociedade com os recursos existentes (Thornbush, Golubchikov & Bouzarovski, 2013). Ainda que a sustentabilidade seja bastante remetida aos aspectos ambientais, no que diz respeito às cidades, é preciso englobar também questões econômicas e sociais e garantir que essas três esferas atuem em conjunto para uma cidade sustentável (Kadir & Jamaludin, 2013). Para frear as consequências da alta expansão urbana, políticas e estratégias de desenvolvimento sustentável foram criadas (Egger, 2006) com o intuito de oferecer melhor qualidade de vida para os cidadãos e equidade social e econômica, conservar energia, utilizar melhor os recursos naturais, diminuir a poluição da água e do ar, gerenciar o desperdício de alimentos e fomentar um crescimento inteligente e saudável nas cidades (Sodiq et al., 2019).

Ainda em resposta ao crescimento populacional urbano e suas consequências negativas, as cidades sustentáveis buscam diferentes ferramentas que auxiliem no gerenciamento e adaptação da crise climática (Hong, Kim, Koo & Kwak, 2012). A busca por soluções de custo relativamente baixo frente a sistemas e tecnologias extremamente caras, capazes de utilizar e otimizar a infraestrutura existente, levou cidades a apostarem em organismos vivos como solos, sedimentos e matéria orgânica com capacidade multifuncional e adaptável, o que levou à utilização das Soluções baseadas na Natureza (SbN) (Hobbie & Grimm, 2020). Através da provisão de serviços ecossistêmicos (SE), as SbN como os telhados verdes passaram a ser utilizados em edificações novas e antigas (Calheiros & Stefanakis, 2021), e se apresentaram como ferramenta eficiente no que tange ao escoamento de água pluvial, menor consumo de energia, ilha urbana de calor, aumento de biodiversidade e melhora no bem-estar social (Editors Rosenzweig, Gaffin & Parshall, 2006).

A estratégia de inovar no planejamento de ambientes sustentáveis melhora a sustentabilidade urbana e traz benefícios em diferentes escalas, sendo que a literatura científica tem reportado há décadas tais benefícios (Saadatian et al., 2013; Pineda-Martos & Calheiros, 2021). Os múltiplos ganhos podem ser organizados em facilidades energéticas (e.g. arrefecimento), melhoria da qualidade do ar (e.g., sequestro de CO2 e retenção de material particulado), controle hídrico (controla o escoamento superficial) e ganhos estéticos, os quais podem gerar benefícios psicológicos (Mihalakakou et al., 2023).

Embora discuta-se bastante sobre telhados verdes e seus benefícios ecossistêmicos, menor atenção é dada à sua viabilidade em telhados de centros comerciais ou edifícios não residenciais, como, por exemplo, shopping centers. Estes locais são estrategicamente favoráveis para tais práticas pois, além de terem espaços, a produção de resíduos orgânicos


oriundo de praças de alimentação é alta, o que pode ser decomposto para se tornar adubo para plantas, aumentando, assim, a produtividade.

Com o intuito de mostrar os benefícios dos telhados verdes para com a fomentação de cidades sustentáveis e inteligentes, o presente trabalho teve como objetivo investigar o projeto Telhado Verde do Shopping Eldorado, na cidade de São Paulo (SP), como uma das ferramentas para construção de cidades sustentáveis. Dessa forma, os resultados deste trabalho poderão ser extrapolados para outros contextos, tipos de construções e ramos comerciais, uma vez que a proposta é aliar oferta de espaço, oportunidade e ação sustentável na transformação e adaptação de cidades.

 

2  Metodologia

 

O presente trabalho baseia-se em uma revisão da literatura, com a seleção de artigos obtidos por meio do Portal de Periódicos da CAPES, a partir de diversas bases de dados, assegurando a abrangência e qualidade das fontes consultadas. A análise, de caráter explicativo e descritivo, busca expor argumentos, fundamentos e informações sobre a implementação dos telhados verdes como uma ferramenta de promoção para o desenvolvimento de cidades sustentáveis. Para a argumentação do assunto foram abordadas questões essenciais acerca dos conceitos de telhado verde e da sustentabilidade urbana, bem como a interligação entre os temas e as necessidades e benefícios que cada vertente pode trazer para as cidades e cidadãos.

Em adição ao levantamento bibliográfico, foi realizada uma pesquisa de base documental no Shopping Eldorado, em São Paulo, para verificação de um telhado verde bem como coleta de informação acerca do processo estabelecido para manutenção do local e de benefícios e desafios para implementação da estrutura. A pesquisa foi realizada através de uma visita guiada que o empreendimento regularmente fornece para pessoas interessadas em conhecer o projeto, o que possibilitou a realização de registros fotográficos e o acesso a materiais informativos.

A visita ocorreu em novembro de 2022, sendo que, além da ida especificamente à laje do edifício, onde se encontra o telhado verde, a guia também levou o grupo a outras dependências do shopping para mostrar não só o processo envolvido na manutenção da estrutura verde como para também explicar todas as ações de sustentabilidade do shopping.

 

3   Resultados

 

3.1   Telhado Verde

Telhados verdes são estruturas urbanas (residenciais ou não) que agregam valor ecológico às partes superiores das construções. Telhados com diferentes tipos de plantas podem servir para alimentação humana, promoção de SE, valores ornamentais ou culturais (e.g., religiosos). No entanto, discute-se atualmente a importância do fomento à estratégia de melhorar a sustentabilidade urbana, especialmente no âmbito da adaptação de espaços urbanos às mudanças climáticas (Li & Babcock, 2014).

O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), documento criado pela ONU sobre mudanças climáticas, sinalizou as cidades como uma das principais áreas para responder às alterações do clima, uma vez que aproximadamente 56% da população mundial vive em centros urbanos, sendo a perspectiva desse número continuar crescendo nas próximas décadas (IPCC, 2022). A necessidade de ação das cidades em prol do clima leva cada vez mais municípios a adotarem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável


 

(ODS) apresentados pela ONU, de modo que se concentrem no ODS 11, o qual é relativo às cidades e visa reduzir o impacto ambiental negativo per capita, desenvolver projetos e implantar iniciativas que levem à diminuição de emissão de gases de efeito estufa, melhora da qualidade do ar e água, gestão de resíduos municipais, entre outros. Por serem considerados atores fundamentais nos esforços de mitigação e adaptação ao clima, as estruturas urbanas devem incluir na agenda temas como promoção e integração de infraestrutura verde, ação preventiva para redução da vulnerabilidade social, evolução na governança das mudanças do clima com maior participação da sociedade civil e planejamento urbano estratégico (Tischler & Haltermann, 2019).

Nesse cenário em que os centros urbanos se encontram predominantemente cinzas em consequência das inúmeras construções, as quais não demonstram sinais de desaceleração, profissionais de diferentes setores sinalizam as SbN, uma vez que são consideradas respostas vivas em que processos e estruturas são projetadas para atender diferentes desafios ambientais, ao mesmo tempo em que oferecem benefícios econômicos, sociais e ecológicos (Brasil et al., 2021). As SbN têm como fundamento o ato de aprender, se inspirar e copiar a natureza, sendo essencial o entendimento do ambiente e o seu processo natural, a fim de aproveitar a força dos ecossistemas como infraestrutura para prover serviços que beneficiem a cidade como um todo (estrutura e atores) (Stefanakis, Calheiros & Nikolaou, 2021). Pearlmutter et al. (2020) acrescentam que, para combater os efeitos do clima e da infraestrutura cinza, é essencial a integração das NbS e das infraestruturas verdes, rede estrategicamente planejada para entrega de SE, para aumentar a presença da natureza nas cidades através da formulação de estratégias inovadoras.

Dentre tipos de SbN estão telhados verdes, parques, florestas urbanas e espaços abertos, jardins comunitários, lagoas de águas pluviais, valas biológicas, zonas ribeirinhas e estruturas de restauração e proteção de habitats naturais (Hobbie & Grimm, 2020). Entretanto, diante da baixa disponibilidade de espaços, uma preocupação em inovar e otimizar áreas livres. Como resposta a essa situação há um movimento de utilização de lajes e telhados de edifícios e construções baixas para a implantação de telhados verdes, os quais podem resultar em economia, ajudar na mitigação climática, melhorar a qualidade de vida das pessoas e contribuir em ações sociais (Wright, Lytle, Santillo, Marcos & Mai, 2021). As SbN, quando integradas às construções, podem ser apresentadas em três esferas: Espaços de construção verde; Materiais de construção verde; e Sistemas de construção verde, sendo que o último engloba os telhados verdes ao serem classificados como sistemas que visam incluir vegetação em seus ambientes, de forma que faixadas de plantas e muros vivos também se enquadram nesta classificação (Pearlmutter et al., 2020).

Os telhados verdes, também nomeados de ecotelhados, telhados vivos, telhados naturais, jardins suspensos, entre outros (Rogers, 2013), apesar de terem ganhado notoriedade nas últimas décadas, têm uma de suas primeiras aparições datadas de 2500 a.C., na Mesopotâmia, diante de registros de edificações com formato escalonado, em que era possível instalar diferentes vegetações em níveis variados, enquanto que, no Brasil, a primeira edificação com cobertura vegetal surgiu na década de 30, no Rio de Janeiro, no então Ministério da Educação e Saúde (Filho, Reis-Alves, Schueler & Rola, 2015). Diferentemente dos primeiros surgimentos, quando ainda não se falava em crise climática ou adensamento de centros urbanos, os telhados são vistos como estruturas capazes de gerar benefícios diretos e indiretos para melhoria na qualidade de vida nas cidades e na contribuição para sequestro de carbono, diminuição de ilhas urbanas de calor, consumo de energia, escoamento e reaproveitamento de água pluvial, além de restauração de ecossistemas degradados (Sousa, Sousa, Magalhães Junior, Nunes, Faria & Faria, 2021).


Além das diferentes nomenclaturas, as estruturas em questão também podem ser classificadas como extensivas, semi-intensivas e intensivas a depender da composição vegetal e especificações de manutenção (Alves, Bezerra, Silva Filho & Souza, 2021). Para melhor entendimento das variedades existentes, Calheiros e Stefanakis (2021) criaram a Figura 1.

 

Figura 1

Presença de Soluções baseadas na Natureza nas construções.

 

 


Fonte: Adaptado de Calheiros e Stefanakis (2021)

 

De acordo com os autores, nos telhados verdes intensivos encontra-se uma grande variedade de espécies de plantas de pequeno e maior porte como grama, arbustos e árvores, que necessitam de manutenção semelhante à de um jardim em relação à fertilização, irrigação e acomodação. Por possuírem exemplares mais robustos, necessitam de maior quantidade e profundidade de substrato (acima de 15 cm) (Alves, Bezerra, Silva Filho & Rouza, 2021). Os telhados verdes extensivos são formados por plantas menores, de menor peso, porém resistentes e capazes de resistir a pouca água, inverno rígido e vento (Sousa, Sousa, Magalhães Junior, Nunes, Faria & Faria, 2021). Devido às suas características, necessitam de menos manutenção e substrato, que varia entre 5 e 15 cm, entretanto, por causa do porte menor, suportam menos carga de água pluvial (Alves, Bezerra, Silva Filho & Souza, 2021). Apesar de não representada na figura 1, os telhados semi-intensivos caracterizam-se por plantas de médio porte, que alternam entre os sistemas extensivos e intensivos (Sousa, Sousa, Magalhães Junior, Nunes, Faria & Faria, 2021), e são constituídos por uma camada de substrato que costuma variar de 12 a 25 cm (Calheiros & Stefanakis, 2021). Para Alves, Bezerra, Silva Filho & Souza (2021), os custos de implementação e manutenção podem tornar os telhados verdes menos atraentes, principalmente quando localizados em regiões mais secas, uma vez que necessitam de maior irrigação, sendo preciso, também, a consideração de espécies capazes de sobreviver com menos água por um período maior.

A composição e a quantidade de cada elemento podem variar entre as diferentes estruturas, entretanto, de modo geral, os telhados verdes são formados por vegetação, substrato, camada filtrante, camada drenante, camada protetora, barreira contra raízes, camada de


 

isolamento, manta de impermeabilização e plataforma do telhado convencional (Morais et al., 2021).

3.1.2 Benefícios econômicos, sociais e ambientais dos telhados verdes

 

Os mais variados benefícios que os telhados verdes podem trazer no âmbito econômico, social e ambiental têm levado diversos países a aderirem a esse movimento de mudança nos centros urbanos e a instalarem esse tipo de estrutura. (Shafique, Kim & Rafiq, 2018). Além de ajudar na diminuição de consumo de energia, ilha urbana de calor, sequestro de carbono e melhora da qualidade do ar (Seyedabadi, Eicker & Karimi, 2021), a utilização de espaços ociosos de prédios pode levar a uma transformação na identidade visual das cidades, uma vez que a área de superfície impermeável das edificações na maioria das cidades varia de 40% a 50% (Calheiros & Stefanakis, 2021).

Tornar os edifícios mais verdes também contribui para a compensação dos danos que eles trazem, afinal, de acordo com a ONU, com base nos relatórios da Agência Internacional de Energia estima-se que a operação de edifícios e o setor de construção em conjunto correspondem a 38% das emissões energéticas globais de dióxido de carbono (CO2) (UNEP, 2020). Ainda que haja cidades que são signatárias do Compromisso de Construções de Carbono Zero do World Green Building Council, somente 29 cidades se comprometeram com a causa, dentre elas, duas da América do Sul, Medellín e Santiago de Cali, na Colômbia (WGBC, 2016). Para esse cenário, os telhados verdes podem ser uma solução no quesito de pegada de carbono e menor consumo de energia.

As edificações com capacidade de implantação de um telhado verde poderão beneficiar-se de uma série de vantagens orientadas para a sustentabilidade, de forma a gerar ganhos econômicos, sociais e ambientais para as cidades. A iniciar pela visão econômica que pode ser percebida pela performance dos telhados diretamente nos edifícios em que se encontram, há estudos que demonstram que a vegetação e o solo dos jardins resfriam a superfície do telhado e do ar ao redor, de maneira a funcionar como um isolante térmico e reduzir a transferência de calor para o espaço interno (Sproul, Wan, Mandel & Rosenfeld, 2014). Uma vez que a temperatura no interior das construções sofre alterações menores, a demanda pelo uso de ar-condicionado ou aquecedor é menor, o que resulta em menor consumo de energia elétrica e, portanto, menos gasto. Ao contribuir para o sequestro de CO2 e consequente melhoria na qualidade do ar, embora não tão evidente, o telhado verde pode gerar custo social de carbono (Teotónio, Silva & Cruz, 2018). Esse dispêndio identifica o custo econômico de uma tonelada adicional de CO2 emitida na atmosfera sobre atividades de bem-estar social, ou seja, é o valor dos danos causados num determinado momento, sendo este uma informação importante para a formulação de políticas públicas (CEPAL, 2019).

Enquanto alguns benefícios podem ser facilmente monetizados, há outros considerados intangíveis por não haver uma forma clara e fácil de quantificar e atribuir valor financeiro, como bem-estar, diminuição de ruído, preservação ecológica, valorização imobiliária e melhoria no design visual da cidade (Shafique, Kim & Rafiq, 2018). A percepção e a quantificação de benefícios, segundo Teotónio, Silva & Cruz (2021), também pode ser afetada no que tange à escala de análise pelo fato que, a depender do tipo, somente será percebido em um nível mais amplo (cidade) e não em um nível menor (edifício). Os autores trazem como exemplo a contribuição insignificante que uma área de 200 de telhado verde pode ter no incremento da qualidade do ar de uma cidade.

Como exemplo de monetização de sequestro de carbono, Hong, Kim, Koo & Kwak (2012) estabeleceram e analisaram diferentes cenários e composições de telhado verde em


escolas que vieram a atestar em diferentes níveis que a quantidade de absorção de CO2 seria capaz de resultar em créditos de carbono e, assim, gerar em valor monetário.

Das três esferas que regem a sustentabilidade, provavelmente a ambiental é onde percebe-se mais facilmente os benefícios, que podem ser os mais variados, como gerenciamento de escoamento de água pluvial, melhora na qualidade do ar e água, diminuição do consumo de energia dos edifícios, diminuição de poluição sonora, extensão de vida dos telhados, redução dos efeitos de ilha de calor e aumento dos espaços verdes nos centros urbanos (Vijayaraghavan, 2016). Tendo em vista a extensão do tema e a fim de explanar com mais detalhes como as cidades e os cidadãos podem se beneficiar ambientalmente, este trabalho abordará três questões: uso de energia, escoamento de água de chuva e efeito de ilhas de calor.

Por adicionar resistência térmica às construções e diminuir a troca de calor entre a estrutura e o ambiente interno, os telhados verdes são capazes de resfriar as instalações em períodos de clima mais quente e, consequentemente, reduzir o consumo de energia para resfriamento (Shafique, Kim & Rafiq, 2018). Esse fenômeno pode ser observado tanto nos prédios novos quanto nos mais antigos, entretanto, é neste último tipo que geralmente maior redução na utilização de energia, pelo fato de que costumam ter uma camada mais fina de isolante térmico, de modo a resultar em maior transferência de calor (Cascone, Catania, Gagliano & Sciuto, 2018). A fim de demonstrar a eficácia energética dos telhados verdes frente a edificações sem essa estrutura, Liu e Baskaran (2003) realizaram um estudo no Canadá comparando as duas construções. Pelo fato de a radiação solar ter forte influência no fluxo de calor do concreto, o telhado verde mostrou ótima performance durante a primavera e o verão, uma vez que foi capaz de melhorar a performance térmica ao prover sombreamento, isolamento, evapotranspiração e massa térmica.

Em períodos de fortes chuvas, árvores e plantas são importantes aliadas das cidades para diminuir o risco de alagamentos. Enquanto a água que cai nas árvores é rapidamente evaporada e retorna para a atmosfera, o solo tem a função de absorvê-la e liberá-la gradualmente em córregos ou fornecer caminho para que chegue ao lençol freático (Editors, Rosenzweig, Gaffin & Parshall, 2006). Em áreas densamente povoadas como os centros urbanos, em que a água de chuva encontra poucas áreas de absorção ao cair diretamente em pavimentos, os telhados verdes também funcionam como uma espécie de purificador, de modo a absorver metais pesados como cobre, zinco, cádmio e chumbo (Shafique, Kim & Rafiq, 2018).

Entre 2006 e 2010, Zhang, Miao, Wang & Liu (2015) analisaram a absorção e qualidade da água de chuva a partir de duas áreas em Chongqing, na China: um telhado verde e outro sem cobertura vegetal, montados ao lado de uma escola. O telhado tradicional demonstrou uma média de 0.42 mm de retenção de água enquanto o telhado verde absorveu no mesmo período uma média de 11.61 m. Em relação ao pH da água, o valor médio obtido no telhado verde foi de 6.84, o qual está dentro do padrão (6.0 - 9.0), entretanto, o outro telhado apresentou um pH mais ácido de 5.61. Tendo em vista que Chongqing é uma região típica de chuva ácida (pH < 5), a qual traz danos para os solos e estruturas físicas, o estudo mostrou que os telhados verdes podem ajudar a reduzir a acidez da água pluvial.

Ao considerar os três elementos fundamentais da sustentabilidade, econômico, ambiental e social, o último é provavelmente a esfera mais difícil de atrelar aos benefícios do telhado verde. Esse inconveniente se dá pelo fato de que os aspectos sociais estão bastante ligados a questões visuais e estéticas, assim como de bem-estar, as quais são intangíveis e não quantificáveis (Shafique, Kim & Rafiq, 2018). Entretanto, os aspectos sociais e de qualidade de vida que beneficiam os cidadãos podem ser explicados pelo valor dos SE, que foram criados justamente para demonstrar os benefícios dos ecossistemas na sociedade (Kotzen, 2018). O


 

conceito de SE, apesar de ainda não ser muito discutido, tem sido utilizado cada vez mais no âmbito estratégico de criação de políticas públicas, tendo em vista a relação do tema com a sustentabilidade das cidades, uso de recursos naturais, mitigação das mudanças climáticas, restauração de ecossistemas, bem-estar dos cidadãos e estética das cidades (Hauck, Görg, Varjopuro, Ratamaki & Jax, 2013).

Os SE, para melhor enquadrar os diversos benefícios aos quais estão ligados, são divididos por alguns autores em quatro categorias: a) serviços de regulação: dizem respeito aos recursos naturais (e.g., qualidade do ar, água, solo), escoamento de água pluvial, resíduos e disseminação de doenças; b) serviços de provisão: englobam bens de consumo (e.g., alimentos e medicamento), produção de biomassa, e matéria-prima para recursos energéticos; c) serviços de suporte: estão relacionados a elementos que colaboram com a conservação de fatores biológicos (e.g., habitat de espécies, manutenção da diversidade genética, formação do solo e ciclagem dos nutrientes e água); d) serviços culturais: incluem valores éticos, apreciação estética e inspiração, recreação, bem-estar, saúde mental e física, educação e conhecimento (Kotzen, 2018; Spangenberg, Gorg, Truong, Tekken, Bustamante & Settele, 2014; Kabisch, 2015).

Ao abordar os aspectos estéticos e de qualidade de vida que os telhados verdes trazem para a sociedade, verifica-se que se enquadram nos serviços culturais, uma vez que estão ligados a benefícios não materiais (Kotzen, 2018). Mesmo que haja tomadores de decisões que digam que os espaços verdes são itens supérfluos e que não devem ser prioridade dentro das políticas, há estudos que sinalizam a relação direta entre as áreas verdes e a saúde mental e física das pessoas (Kondo, Fluehr, McKeon & Branas, 2018). Ademais, Bratman et al. (2015) sinalizam diversos os benefícios que as áreas verdes trazem para o bem-estar humano, uma vez que as áreas que comportam plantas e vegetação são capazes de atuar na mitigação e melhora de doenças mentais, estresse e até funções cognitivas de pessoas de diversas faixas etárias, o que tem fomentado algumas cidades a incluírem tal assunto nas discussões de agenda pública e a repensarem as estruturas e design dos centros urbanos.

Adicionalmente, os telhados verdes podem trazer valor social ao serem utilizados para produção de alimentos, mesmo que em menor escala do que em relação aos métodos tradicionais de produção em grandes áreas e diretamente no solo (Shafique, Kim & Rafiq, 2018). A utilização das edificações para esse tipo de finalidade, além de permitir a diminuição da distância entre produtor e consumidor, implicando a uma menor quantidade de perda de alimento, também resulta no enriquecimento educacional e cultural no que diz respeito à aproximação dos cidadãos com um sistema que não é encontrado nos centros urbanos e que, muitas vezes, por estar localizado em municípios mais afastados, resulta em falta de contato e conhecimento das pessoas acerca de como os alimentos que consomem são produzidos (Walters & Midden, 2018).

Por não estarem ligados somente a aspectos ecológicos, mas também por apresentarem benefícios interligados com conceitos difundidos da sustentabilidade, sendo eles econômico, social e ambiental, os telhados verdes mostram-se aliados dos centros urbanos e cidadãos para fomento de negócios, mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e promoção de uma qualidade de vida melhor. Entretanto, para que essas estruturas possam estar ainda mais presentes nas cidades em prol de uma agenda sustentável, capaz de utilizar de maneira inteligente todos os recursos que estão à disposição, é preciso que os diversos atores da sociedade se envolvam (Calheiros & Stefanakis, 2021).


3.2   Telhado Verde do Shopping Eldorado

 

O telhado verde do shopping Eldorado foi criado em 2012 diante de uma solução vislumbrada para a destinação adequada das 164 toneladas de resíduos orgânicos gerados mensalmente na praça de alimentação, sendo que a quantidade chega a aproximadamente 2 mil toneladas anualmente.

O processo de tratamento dos resíduos se inicia na própria praça de alimentação, mais especificamente em uma espécie de baia, onde os funcionários realizam a separação de alimentos e itens deixados nas bandejas, em resíduo orgânico (sacola marrom) e reciclável (sacola verde).

Após a separação, os resíduos orgânicos são levados à área de compostagem interna, onde são triados (verifica-se se algum outro resíduo além do orgânico) e depois inseridos na máquina de compostagem (Figura 2), que é um maquinário antigo comprado em um local que vende sucata. No maquinário junto aos resíduos são adicionados: a) turfa: responsável por acelerar o processo de decomposição do alimento ; b) cal: auxilia na secagem dos alimentos, através de uma reação química que ocorre durante a mistura dos elementos ; c) serragem: reforça o processo de secagem dos alimentos e também reduz o forte odor do orgânico em decomposição.

 

Figura 2

Composteira do Shopping Eldorado.

 


Fonte: Acervo dos autores (2023).

A partir da compostagem é obtido o adubo a ser utilizado no telhado verde. Tendo em vista que a quantidade de adubo gerado a partir da compostagem de todo material orgânico seria muito superior ao que a vegetação necessita, o shopping utiliza somente 20% dos resíduos,


 

sendo que o restante é destinado à empresa Biomix, a qual também os destina para compostagem e posterior venda de adubo.

O telhado verde é composto basicamente por hortaliças e verduras, sendo que também há algumas árvores frutíferas e flores (Figura 3). Na área de 6.000 m² são produzidas 40 mil hortaliças e verduras por ano, sendo elas de aproximadamente 30 tipos, como alface, rúcula, abobrinha, couve, salsinhas, ervas, entre outras. Todo alimento gerado é distribuído entre os funcionários do shopping, os quais rotativamente sobem ao telhado quando as culturas estão prontas e participam do processo de colheita.

 

Figura 3

Telhado verde - hortaliças e verduras - ervas e flores


Fonte: Acervo dos autores (2023).

 

Os motivos que levaram o shopping a implementar o telhado verde foram basicamente dois: sustentabilidade e questões econômicas. Diante da lei municipal 13.478, de 2002, todos os Grandes Geradores de Resíduos Sólidos (RGG), ou seja, estabelecimentos comerciais que geram mais de 200 litros de lixo por dia, devem contratar uma empresa responsável para a execução dos serviços de coleta, transporte, tratamento e destinação final dos resíduos gerados. O shopping é o responsável pelo descarte dos resíduos, sendo que, até 2012, eram totalmente destinados a aterros sanitários.

A partir da implementação do projeto, os resíduos passaram a ser compostados e o excedente destinado a uma empresa terceira, responsável pela coleta do material no próprio shopping, o que levou o empreendimento a reduzir a quantidade de material enviado para os aterros, de 86% (2013) do resíduo total para 29% (2021). Em termos de benefícios, o telhado verde ainda contribuiu para diminuir em torno de 6 graus a temperatura no entreforro do edifício, o que levou a um menor consumo de energia.

A fim de a cada ano melhorar as ações de sustentabilidade do shopping, a administração tem o objetivo de chegar ao aterro zero, o que pretende fazer ao se adaptar ao mercado e apresentar projetos novos e inovadores.


4   Análise dos Resultados

 

De acordo com a revisão bibliográfica realizada, entende-se que, embora telhados verdes sejam reconhecidos como uma SbN que contribui significativamente para a sustentabilidade urbana, especialmente em resposta às mudanças climáticas (Li & Babcock, 2014; IPCC, 2022), a implementação dessas estruturas enfrenta desafios, incluindo custos iniciais e de manutenção, especialmente em regiões mais secas (Alves, Bezerra, Silva Filho & Souza, 2021). Além disso, a composição e a manutenção variam conforme o tipo de telhado verde, considerando que podem ser extensivos, semi-intensivos e intensivos, cada qual com diferentes requisitos de substrato e cuidados (Calheiros & Stefanakis, 2021).

Shafique, Kim & Rafiq (2018) também em revisão da literatura, destacam os múltiplos benefícios dos telhados verdes, incluindo o impacto na sensação urbana de calor, melhora na qualidade do ar, gerenciamento de escoamento de águas pluviais, redução do consumo energético, bem como serviços culturais de bem-estar e saúde mental. No entanto, o trabalho não insere os telhados verdes no contexto das SbN, e enfatiza uma maior necessidade de investigação experimental detalhada, além de abordar de forma específica os impactos na hidrologia e mitigação do aquecimento global.

No mesmo sentido, outra revisão da literatura (Vijayaraghavan, 2016) aponta semelhanças entre os benefícios dos telhados verdes, no entanto destaca a importância de integrar essas estruturas a outras práticas de gestão, além da necessidade de otimização de componentes para diferentes condições climáticas. Ainda, o autor enfatiza a lacuna de análises em relação ao ciclo de vida e custos em cada localização geográfica para entender o cenário real e permitir uma melhor tomada de decisão por parte de consumidores e políticos.

Ao encontro dos resultados obtidos pela presente revisão da literatura, o projeto do telhado verde no shopping Eldorado indica a redução na temperatura interna do edifício, resultando em menor consumo energético, além de abordar a gestão eficiente de resíduos com a consequente redução de envio a aterros sanitários. Assim, para aprofundar a eficácia e retornos do projeto, seria de grande valia futuramente realizar análises que contemplem outros parâmetros, incluindo bem-estar e estética, e avaliações de ciclo de vida e análises de custo-benefício.

 

5   Considerações Finais

 

A partir da revisão de literatura e da pesquisa documental em campo, verificou-se que os telhados verdes são uma ferramenta de fomento às cidades sustentáveis e inteligentes, especialmente nas megacidades, oferecendo benefícios como redução do efeito de ilhas de calor, melhoria da qualidade do ar, gestão de águas pluviais e diminuição do consumo energético - problemas demasiadamente acentuados em grandes centros urbanos. No entanto, sua implementação enfrenta desafios como altos custos iniciais e de manutenção, especialmente em regiões secas, e a necessidade de adaptação conforme o tipo de telhado. Exemplos como o telhado verde do Shopping Eldorado na megacidade de São Paulo destacam tais benefícios, demonstrando a redução da temperatura interna e do consumo de energia, além da gestão eficiente de resíduos. Estudos futuros devem explorar parâmetros como bem-estar, estética, avaliações de ciclo de vida e análises de custo-benefício para uma compreensão mais abrangente dos impactos e retornos dessa iniciativa.

Diante da projeção de que o movimento de urbanização continuará crescendo nas próximas décadas, é fundamental que as cidades encontrem soluções para mitigar problemas


 

resultantes desse crescimento desenfreado e assim contribuam para a Agenda 2030, mais especificamente no que diz respeito a esse trabalho à ODS 11 relativa a cidades e comunidades sustentáveis.

Dentro do movimento para garantir que as cidades sejam sustentáveis nos mais diversos âmbitos, os telhados verdes aparecem como uma solução inovadora a partir do momento em que trazem consigo a adaptabilidade. Sabendo-se que as cidades continuarão a expandir e que áreas de vegetação trazem inúmeros benefícios, encontrar espaços sem utilidade e transformá-los em ambientes capazes de trazer maior qualidade de vida, ajudar na amenização das temperaturas locais, auxiliar na diminuição dos alagamentos, fornecer alimento e gerar economia de recursos é algo inovador.

 

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i Especialista em Gestão Estratégica da Sustentabilidade, Fundação Instituto de Administração, São Paulo, SP, Brasil.

ii Doutorado em Administração, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

iii Mestre em Ciências Médicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

iv Doutorado em Ciências, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.